domingo, 25 de dezembro de 2016

DAS COISAS QUE SE ATIRAM NOS POLÍTICOS


Esta é a fase do espetáculo em que o público, não aguentando mais o ator, começa a arremessar toda sorte de objetos, por vezes, até dejetos em cima dele. Significa que não há reviravoltas possíveis, nem atos de heroísmo nem de pura covardia, nada resgatará o espetáculo de seu final pífio. O Político, talvez até mais do que o artista, adora palcos, e também tribunas, palanques, plataformas. Por mais desagradável que seja o cenário, por mais grotesco que seja o enredo, aí ele encena o melhor dos mundos. Apenas a alguns centímetros do chão, ele se acredita numa torre de marfim. Refugiado da carência, fraqueza, impotência diante da vida. Sobem com ele aí toda burocracia e jurisdição. Juntos falam melhor do progresso social e econômico que promovem. Dos grandes avanços da Indústria e do Mercado. Das notáveis contribuições do Partido na grande cidade que governam. Daí para o resto do país, sobre o palco, anuncia-se a melhor das escolas, não porque indivíduos mais educados tornam-se mais produtivos, mas porque o público “sonha” com essa escola. Ela vai bater à sua porta todas as manhãs e todas as noites que o filho sair para estudar sem saber se ele voltará vivo. Todos humilhados nesse pesadelo em que também é incerto toda sorte de direitos: saúde, emprego, comida. Infelizmente o “respeitável” público não tem como passar sem isso. Daí que todas essas coisas não deixam de ser implacavelmente anunciadas, recapituladas, de punhos erguidos, como maravilhas de um mundo iminente, com a condição, é verdade, de serem mais uma vez repetidas amanhã, como forma de reativar os ânimos e dissuadir os pessimistas. Vida e bem-estar social só se opõem do ponto de vista dos políticos. Para eles se está sempre nas etapas antecedentes do desenvolvimento. O melhor dos mundos nunca é efetivo. Eles sabem trapacear "limpo" - sabem que imagens turvadas, embaralhadas estão sempre a favor do réu, falam do que ninguém mais pode tornar preciso - terá sempre um Moro a fazer (este sim) o serviço sujo. O estado e sua jurisdição volante e violenta! Se crianças ainda morrem de fome no Norte e Nordeste, se o tráfico de drogas domina cidades inteiras, se não há médico, remédio, salário, vergonha na cara – eles brandem tudo isso, porque tudo está prestes a melhorar.... Enquanto nada acontece, eles se distraem com o grande público. Riem da corrupção, da ineficiência, dos altos impostos. Pelas mesmas razões estúpidas a que sempre recorrem, conclamam o público a votar. Tudo a um passo de acontecer. A escola, a saúde, o emprego, a comida. Só que por um descuido, uma falha na produção do espetáculo, ou talvez animado pelas pesquisas ou pelas benesses delirantes do cargo que disputa, ou ainda, por amor ao bom público, um deles desce do palco e, longe dos holofotes, com passos que se revelam trôpegos, se põe a andar entre as pessoas; e ali, de súbito, tudo começa a dar errado: a tentativa de proximidade não surte efeito, os gestos resultam falsos, e todos começam a perceber os signos de um triste desenlace. Que o enredo é falho, a fala é de um clown e a maquiagem esconde a face de um ator ruim. O público se depara com um espetáculo que já deu, se esgotou, saturou a todos. A esse ator só resta fugir, partir pra outra. É a fase do espetáculo em que o público começa a arremessar toda sorte de objetos... Ou ouvem-se tiros... Cortina!

 
Assassinato do embaixador russo na Turquia Andrey Karlov








Ney Ferraz Paiva


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Amanhã passaremos a datar 1990. Entramos na última
dezena do milênio. Muda a minha noção de tempo?
Sim e não. A última dezena do milênio soa imperativa
com um longo rastro histórico que se arrasta em sinuosos
movimentos.
O meu tempo pessoal é fugaz, desaparece quando tento aflorar-lhe
o conteúdo.
Minkoswski introduziu em psicopatologia a noção de espaço
vivido, juntamente com a noção de tempo vivido.
As distâncias entre objetos, por exemplo, não são experienciadas
de maneira constante independentemente das situações
subjetivas. Minkowski descreve o espaço claro caracterizado
pela nitidez do contorno dos objetos, pela existência de
espaço livre entre as coisas.
Noutro tipo de espaço vivido, o espaço escuro, não se
trata de luz física, porém de sensação de se estar encobrido,
apertado, oprimido por uma obscuridade misteriosa.
Apaga-se a distância estre os objetos (distância vivida).
O espaço vital estreita-se sem perspectivas.


Sinto-me tentada a transpor estas noções de espaço claro
e espaço escuro aos diversos momentos e lugares da
História. Acredito que estamos vivendo um momento
que poderíamos chamar de momento de espaço obscuro.






Giselda Leirner, domingo, 31 de dezembro de 1989
Imagem: Ney Ferraz Paiva, colagem cobre fotografia de Giselda Leirner em Toulouse

domingo, 4 de dezembro de 2016

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA 2




Clarice: "nasci para escrever"


A maioria dos escritores brasileiros encerra a carreira na noite de autógrafo. Sem se destinar ao sucesso e à fama, muito menos ao êxito, seu livro nasce e morre ali, sob os frívolos holofotes do azar. Desponta para o anonimato. E tudo pode se complicar ainda mais se o pretendente for poeta. Clarice Lispector era poeta, e tratou de adequar sua poesia aos moldes de uma prosa desestruturada e fragmentária – ela tomara consciência de que ser poeta, e mais: ser mulher nos anos 1940 (o mesmo continua valendo para os dias que correm?) é o início de um fim. Observando a carreira de Clarice, chega-se à conclusão de que ela falia a cada livro. Tudo bem, Clarice tinha a crítica a seus pés  amigos, jornais, revistas a que recorria para sobreviver. Seus lançamentos eram concorridos. Num tempo sem políticas públicas para a cultura e os famigerados incentivos, os leitores não estavam extintos. O ambiente artístico entre os anos 1950 e 1960 era espaço de pensamento e não estritamente de diversão, lazer, entretenimento. Livro e leitura nutriam-se da inspiração crítica moderna. Uma crítica radical da sociedade. Entretanto, não se trata mais de contrapor a isso o que temos, na verdade, o que tínhamos indagorinha, como se aquele tempo fosse o ideal de todos os tempos. Ao menos se pegarmos pelas bordas trate-se, afinal, do mesmo funcionamento das coisas. E é o que fica, é o que importa. Como o escritor se relaciona. O que quer. Que acontecimentos resultam daí. Que afecções...


Ney Ferraz Paiva