domingo, 25 de dezembro de 2016

DAS COISAS QUE SE ATIRAM NOS POLÍTICOS


Esta é a fase do espetáculo em que o público, não aguentando mais o ator, começa a arremessar toda sorte de objetos, por vezes, até dejetos em cima dele. Significa que não há reviravoltas possíveis, nem atos de heroísmo nem de pura covardia, nada resgatará o espetáculo de seu final pífio. O Político, talvez até mais do que o artista, adora palcos, e também tribunas, palanques, plataformas. Por mais desagradável que seja o cenário, por mais grotesco que seja o enredo, aí ele encena o melhor dos mundos. Apenas a alguns centímetros do chão, ele se acredita numa torre de marfim. Refugiado da carência, fraqueza, impotência diante da vida. Sobem com ele aí toda burocracia e jurisdição. Juntos falam melhor do progresso social e econômico que promovem. Dos grandes avanços da Indústria e do Mercado. Das notáveis contribuições do Partido na grande cidade que governam. Daí para o resto do país, sobre o palco, anuncia-se a melhor das escolas, não porque indivíduos mais educados tornam-se mais produtivos, mas porque o público “sonha” com essa escola. Ela vai bater à sua porta todas as manhãs e todas as noites que o filho sair para estudar sem saber se ele voltará vivo. Todos humilhados nesse pesadelo em que também é incerto toda sorte de direitos: saúde, emprego, comida. Infelizmente o “respeitável” público não tem como passar sem isso. Daí que todas essas coisas não deixam de ser implacavelmente anunciadas, recapituladas, de punhos erguidos, como maravilhas de um mundo iminente, com a condição, é verdade, de serem mais uma vez repetidas amanhã, como forma de reativar os ânimos e dissuadir os pessimistas. Vida e bem-estar social só se opõem do ponto de vista dos políticos. Para eles se está sempre nas etapas antecedentes do desenvolvimento. O melhor dos mundos nunca é efetivo. Eles sabem trapacear "limpo" - sabem que imagens turvadas, embaralhadas estão sempre a favor do réu, falam do que ninguém mais pode tornar preciso - terá sempre um Moro a fazer (este sim) o serviço sujo. O estado e sua jurisdição volante e violenta! Se crianças ainda morrem de fome no Norte e Nordeste, se o tráfico de drogas domina cidades inteiras, se não há médico, remédio, salário, vergonha na cara – eles brandem tudo isso, porque tudo está prestes a melhorar.... Enquanto nada acontece, eles se distraem com o grande público. Riem da corrupção, da ineficiência, dos altos impostos. Pelas mesmas razões estúpidas a que sempre recorrem, conclamam o público a votar. Tudo a um passo de acontecer. A escola, a saúde, o emprego, a comida. Só que por um descuido, uma falha na produção do espetáculo, ou talvez animado pelas pesquisas ou pelas benesses delirantes do cargo que disputa, ou ainda, por amor ao bom público, um deles desce do palco e, longe dos holofotes, com passos que se revelam trôpegos, se põe a andar entre as pessoas; e ali, de súbito, tudo começa a dar errado: a tentativa de proximidade não surte efeito, os gestos resultam falsos, e todos começam a perceber os signos de um triste desenlace. Que o enredo é falho, a fala é de um clown e a maquiagem esconde a face de um ator ruim. O público se depara com um espetáculo que já deu, se esgotou, saturou a todos. A esse ator só resta fugir, partir pra outra. É a fase do espetáculo em que o público começa a arremessar toda sorte de objetos... Ou ouvem-se tiros... Cortina!

 
Assassinato do embaixador russo na Turquia Andrey Karlov








Ney Ferraz Paiva


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Amanhã passaremos a datar 1990. Entramos na última
dezena do milênio. Muda a minha noção de tempo?
Sim e não. A última dezena do milênio soa imperativa
com um longo rastro histórico que se arrasta em sinuosos
movimentos.
O meu tempo pessoal é fugaz, desaparece quando tento aflorar-lhe
o conteúdo.
Minkoswski introduziu em psicopatologia a noção de espaço
vivido, juntamente com a noção de tempo vivido.
As distâncias entre objetos, por exemplo, não são experienciadas
de maneira constante independentemente das situações
subjetivas. Minkowski descreve o espaço claro caracterizado
pela nitidez do contorno dos objetos, pela existência de
espaço livre entre as coisas.
Noutro tipo de espaço vivido, o espaço escuro, não se
trata de luz física, porém de sensação de se estar encobrido,
apertado, oprimido por uma obscuridade misteriosa.
Apaga-se a distância estre os objetos (distância vivida).
O espaço vital estreita-se sem perspectivas.


Sinto-me tentada a transpor estas noções de espaço claro
e espaço escuro aos diversos momentos e lugares da
História. Acredito que estamos vivendo um momento
que poderíamos chamar de momento de espaço obscuro.






Giselda Leirner, domingo, 31 de dezembro de 1989
Imagem: Ney Ferraz Paiva, colagem cobre fotografia de Giselda Leirner em Toulouse

domingo, 4 de dezembro de 2016

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA 2




Clarice: "nasci para escrever"


A maioria dos escritores brasileiros encerra a carreira na noite de autógrafo. Sem se destinar ao sucesso e à fama, muito menos ao êxito, seu livro nasce e morre ali, sob os frívolos holofotes do azar. Desponta para o anonimato. E tudo pode se complicar ainda mais se o pretendente for poeta. Clarice Lispector era poeta, e tratou de adequar sua poesia aos moldes de uma prosa desestruturada e fragmentária – ela tomara consciência de que ser poeta, e mais: ser mulher nos anos 1940 (o mesmo continua valendo para os dias que correm?) é o início de um fim. Observando a carreira de Clarice, chega-se à conclusão de que ela falia a cada livro. Tudo bem, Clarice tinha a crítica a seus pés  amigos, jornais, revistas a que recorria para sobreviver. Seus lançamentos eram concorridos. Num tempo sem políticas públicas para a cultura e os famigerados incentivos, os leitores não estavam extintos. O ambiente artístico entre os anos 1950 e 1960 era espaço de pensamento e não estritamente de diversão, lazer, entretenimento. Livro e leitura nutriam-se da inspiração crítica moderna. Uma crítica radical da sociedade. Entretanto, não se trata mais de contrapor a isso o que temos, na verdade, o que tínhamos indagorinha, como se aquele tempo fosse o ideal de todos os tempos. Ao menos se pegarmos pelas bordas trate-se, afinal, do mesmo funcionamento das coisas. E é o que fica, é o que importa. Como o escritor se relaciona. O que quer. Que acontecimentos resultam daí. Que afecções...


Ney Ferraz Paiva

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

ABOLIÇÃO DA ESCRIVANINHA

[pra morrer basta estar vivo/ mas eu já havia morrido de estranheza]



Por certo cabe ainda perguntar: como um livro de poesia pode voltar a ser um acontecimento? Um romance? Uma peça de teatro? Quando se voltará a ter o escritor ligado à interioridade, a nós mesmos e à vida? Talvez agora sem a profusão dos editais e dos Planos e Sistemas de cultura operados pela grande máquina do Estado, algo se nos dará o ofício lento dos livros - abertos fechados rasgados sublinhados sujos de cinza de cigarro, da experimentação de linguagem, pensamento, sensações. Talvez o que precisássemos para que o conflito, muito mais do que o encontro frugal “literatura livro leitura”, se distendesse por sobre outros novos territórios e horizontes possíveis, é que voltássemos a ter tempo – não mais voltar no tempo, não mais ir arrancar nas distâncias o tempo perdido, mas tão-somente “tempo”. Tempo para não fazer nada. Escrever/ler/escrever. Repouso e inércia. Que outro ciclo de desenvolvimento pode abreviar esse? Um tempo para estar sozinho. Hoje trata-se amplamente o livro como objeto, produto, atração. Mas era preciso pensar o silêncio do livro muito mais do que seus ecos. A liberdade em torno do livro e sua orfandade.



Quando Franz Kafka publica os oito contos que irão compor Contemplação, na revista Hyperion (Munique, 1908), está na companhia de ninguém menos que Rilke, Hofmannsthal e Heinrich Mann. Na companhia, com certeza é uma afirmação que não procede, melhor dizer, órfãos que não se prestaram muita atenção. Mas que se renderam a algo maior que eles. Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Ezra Pound. Outra trindade dissonante e insólita, posta no mesmo terreno de caça, em Paris, e com graves problemas de adaptação. Tempos de muito engajamento e muita frustração. No mesmo plano, em Belém, Paulo Plínio Abreu, Mário Faustino e Max Martins, aproximam-se e convivem na estranheza em conjugação com um modelo de recusas e negações que a escrita estabelece e faz atravessar, cada um a seu modo. Entre eles transfigurou-se ainda outra personagem dos abismos, o poeta norte-americano Robert Stock. Todos escreveram enfiados debaixo da terra. Nas trevas e nas grandes aventuras. Todos participaram nisso. Uns com os outros. Uns contra os outros. Com amizade. Com rivalidade. Experimentando e arrastando o assombro do mundo até nós. Como algo que não seja daqui, mas de mais além.






Ney Ferraz Paiva
Imagem: Georgina Goodwin


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PEDRA NEGRA SOBRE PEDRA BRANCA





Morrerei em Paris num dia de chuva,
um dia do qual já me recordo.
Morrerei em Paris 
 e não me incomoda 
talvez numa quinta-feira, como hoje, de Outono.

Quinta-feira será, porque hoje, quinta-feira, dia em que escrevo
estes versos, já coloquei os meus ombros
na mala e, nunca como hoje, me voltei,
em todo o meu caminho, a ver-me só.

César Vallejo morreu, todos pegavam nele
sem que ele lhes faça nada;
batiam-lhe forte com um pau duro
e também com uma corda; são testemunhas
os dias de quinta-feira, os ossos dos ombros,
a solidão, a chuva, os caminhos...













César Vallejo
Tradução: Isaac Pereira
Imagem: Duane Michals


terça-feira, 8 de novembro de 2016

                                             25 de novembro de 1976


Caro Vadim Kosovoi,

Sim, recebi teu livro sobre Paul Valéry. Quero
agradecer, dizendo-te o quão fui tocado por teu sinal
de solidariedade. Recebe-o de mim também. Sim, es-
tejamos unidos pelos valores de liberdade, de frater-
nidade, e desejemos que a cultura, sendo intercambi-
ada ajude a nós todos a melhor compreender  o  que
está em jogo nas palavras e para além delas.
           com meus mais cordiais pensamentos.


                                                        Maurice Blanchot



CARTAS A VADIM KOZOVOI, Maurice Blanchot, Lumme Editor, 2012
Tradução: Amanda Mendes Casal e Eclair Antonio Almeida Filho
Imagem: ney ferraz paiva

sábado, 5 de novembro de 2016

...
Juventude –
a jusante a maré entrega tudo –
maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento –
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro, o rasto –
maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!)
tragado pelo vento, assinalado
nos pélagos do vento, recomposto
nos pósteros do tempo, assassinado
na pletora do vento –
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a postos,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento
e apascentar o vento,
encapelado vento –
mar à vista da ilha,
eternidade à vista
do tempo –

o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento –
e a terna idade amarga – juventude –
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vista
de si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoa
do tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo –
maravilha de estar assimilado
pelo vento repleto e pelo mar completo – juventude –
a montante a maré apaga tudo –
...



Mário Faustino, O Homem e Sua Hora, 1955
Imagem: Ernesto Timor, Limites

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Minha mãe enterrada
é exumada para reprises
[...]

Agora querem fazer um filme
Para os incapazes
De imaginar o corpo
Com a cabeça no forno.
Os comedores de amendoim, divertindo-se
Com a morte de minha mãe, irão para casa...
Talvez compreendam o filme.
Só precisarão pressionar 'pause'
Se quiserem colocar a chaleira no fogo
Enquanto minha mãe segura sua respiração na tela
Para terminar de morrer depois do chá.
[...]

Eles pensam que eu deveria adorar
Eles pensam
Que eu deveria lhes dar as palavras de minha mãe
Para encher a boca de seu monstrengo
Sua Boneca Sylvia Suicida
Que vai saber andar, falar
E morrer quando eles quiserem
Morrer e morrer de novo
Viver sempre morrendo.






Frieda Hughes, fragmentos
Imagem: Sylvia Plath, Frieda Hughes ladeda pelo busto do pai Ted Hughes.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lady Lázaro




Fiz novamente
Um ano em cada dez
Eu tento...
Uma espécie de milagre ambulante, minha pele
Brilha como uma lanterna nazista,
Meu pé direito
Um peso de papel,
Minha face apática, delicado
Linho judeu.
Cedem as cortinas
Oh meu inimigo.
Eu te assusto?...
O nariz, a cova dos olhos, todos os dentes?
O hálito azedo
Irá dissipar-se algum dia.
Muito, muito em breve a carne
Que o túmulo consumiu voltará
Ao lar, em mim.
E eu, uma mulher sorridente.
Eu tenho apenas trinta anos
E como um gatos, tenho nove vidas para morrer.
Esta é a Número Três.
Que bobagem
Aniquilar-se a cada década.
Um milhão de filamentos.
A multidão comendo amendoim
aproxima-se para ver
Desenfaixarem-me as mãos e os pés
O grande Strip-tease.
Senhoras e senhores!
Eis minhas mãos
Meus joelhos
Posso ser apenas pele e osso,
Mas eu sou a mesma,
A mesma mulher.
Na primeira vez eu tinha apenas dez anos.
Foi um acidente.
Na segunda eu desejei
Levar até o fim e não retornar.
Insegura, tranquei-me
Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar-me os vermes como pérolas grudentas.
Morrer
É uma arte, como qualquer outra,
Eu sou excepcionalmente boa nisso.
Eu faço isso parecer tão infernal
Eu faço isso parecer tão real
Aposto que vocês vão dizer que é minha vocação
É muito fácil fazer isso numa cela
É tão fácil fazer isso e permanecer nela
É teatral.
Retorno sob a luz do sol
Para o mesmo lugar, com o mesmo rosto
O mesmo grito
Divertidamente irracional:
“Um milagre!”
Que me deixa mal.
Há um preço
Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração -
Ele bate, deveras.
E há um preço, um preço muito alto
Para uma palavra ou um toque
Ou uma mancha sangue
Ou uma mecha do meu cabelo ou minhas roupas
Então, então, senhor doutor.
E então, senhor inimigo.
Eu sou sua obra-prima,
Eu sou seu tesouro,
O bebê de puro ouro
Que se mistura num grito.
Eu viro e queimo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação
Cinza, cinza...
Você remexe e atiça
Carne, osso, não há mais nada ali...
Uma barra de sabão
Uma aliança de casamento
Um obturação de ouro.
Senhor Deus, Senhor Lúcifer
Cuidado
Cuidado
Saída das cinzas
Ergo-me com os cabelos escarlates
E devoro homens como se fossem ar.





Sylvia Plath
Tradução de Samantha de Sousa
Imagem: ney ferraz paiva, colagem, 2016


À espera



À espera, de pé, na pedra
entre a esfera verde do mar

e a estrela que a cada
noite se aproxima, falas

cada vez mais mudo,
numa voz que escuta o fundo

de outra voz que vem
e diz-não-diz em eco,

hein, idioma de algas
algo assim num som surdo:

nada, vestido de corpo e carma,
enquanto se dissolve o mundo









Antônio Moura
Imagem: ney ferraz paiva, “sei que tu estais muito fatigada”, colagem, 2016.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

POEMA DE OUTUBRO


Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã

Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.

Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.

Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio no bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.

Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela

E pelos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.

E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.

Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.





Dylan Thomas

Tradução de Ivan Junqueira
Imagem: Ernesto Timor, Infusão

domingo, 23 de outubro de 2016

Vivissecção



Li numa antologia de poetas norte-americanos                                          
Você foi a única a morrer
Olhos vazados cor de fogo de jacinto & enxofre                                              
Ainda dispostos a se irar
Coração arrancado bem na frente dos filhos                                                 
Você nem teve tempo de gritar
Ovelha na cerração
Desorientada & com medo
Trinta anos apenas & já sacrificada
Golpeada por machado
Comida por ervas daninha













Ney Ferraz Paiva

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Sol da morte


A voz sempre volta ao subterrâneo de onde saiu
O que sobe aos céus gera morte
Embaixo da terra de nenhum modo escurece





Ney Ferraz Paiva
Imagem: Ernesto Timor, meus campos visuais [aparições e reconstruções] Ciclo 1, 2014

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Estamos aqui talvez para dizer água



As palavras desistem
São poucas eu muito
Apesar de ficar longe
De mim esse tempo todo
O silêncio voz dos introvertidos
Pode durar dez anos
O resto são fragmentos
De uma longa tarde
Ou das graves sombras do rio
Por onde me seguem
Os líquidos passos da morte
Meu caminho ondeia & despista
Sabe eu vivo sempre nas margens
Sob a chuva vermelha das metáforas
Apenas um dos meus pés está no fogo
Perto daqui não há consolo
As gaivotas no inverno fogem para as águas doces
Nunca retornei




Ney Ferraz Paiva
Imagem: Marepe

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SOBRETUDO NO INSTANTE EM QUE O VENTO DE OUTUBRO 

  



Sobretudo no instante em que o vento de Outubro
vem com os dedos de geada flagelar os meus cabelos
e eu, preso pelas garras do sol, caminho sobre as chamas
e estendo sobre a terra uma garra sombria
junto à orla do mar, ouvindo o ruído dos pássaros
e o crocitar do corvo nas ramarias de Inverno,
é que mais estremece o meu coração com a sua voz
e se derrama o sangue silábico ou as suas palavras perdidas

Assim encerrado numa torre de palavras eu desenho
sobre o horizonte, ao caminhar como as árvores,
os perfis verbais de mulheres e, num parque, as filas longas
das crianças cujos gestos se assemelham a estrelas.
Há quem pretenda que eu te crie das faias vocálicas,
das vozes dos carvalhos ou que te conte uma narrativa
a partir das raízes de muitas províncias espinhosas,
e há quem pretenda que te crie das palavras de água.
Através de um vaso de fenos, o relógio que oscila
pronuncia a palavra das horas, o sentido enervado
paira sobre o círculo do pêndulo, declama a manhã
e vem anunciar no cata-ventos a tempestade.
Há quem pretenda que dos sinais do prado eu te crie;
a erva memorável que me diz tudo o que já sei
rompe através do olhar com o Inverno cheio de vermes.
E há quem pretenda que eu te conte os pecados do corvo.
Sobretudo no instante em que o vento de Outubro
(há quem pretenda que te crie de uma outonal magia,
dos sonoros montes do país de Gales ou da baba das aranhas)
vem com o punho dos bolbos flagelar a terra,
há quem pretenda que te crie com palavras sem coração.
O coração esgota-se estremecendo com a fuga
do sangue químico, consciente de como a agitação chega.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.



Dylan Thomas
Tradução de Fernando Guimarães
Imagem: Francesca Woodman

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apoia em nada
eu não me apoio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopeias libertas ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo










Roberto Piva
Ernesto Timor