Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ARRASTAR UM LANDAU DEBAIXO D'ÁGUA


UM HORIZONTE PROVÁVEL: 

AUTOMÓVEIS SUBMERSOS

Redemoinhos de vida se alastram.
A noite ferve o mundo.
Imergir para outros trânsitos. A imagem do automóvel submerso funciona como umbral, enlace para curvas sem consolo, talvez mais, para os lados, para o subterrâneo. Finalmente evadir-se dos pontos. Pontos fixos embaraçam as linhas, obliteram ondas. É preciso escapar do foco, sobretudo dos mapas e mapas do mesmo. Desenhando uma outra cartografia, Ney Ferraz Paiva nos diz sem receios: “escrever é não ter chaves/ dos mares portos ilhas/ périplo a esmo no Pacífico”. A poesia de Ney Ferraz Paiva se desloca num ciclo vicioso cuja persistência equivale a uma vontade de despertencimento, força [in] transitiva que não cessa de se perder, acontecimento que desata num desejo escapadiço, movimento no qual escrever se consagra num erro essencial. Sim, o jogo se deflagra ainda na literatura, é disso que se trata, de escrever como questão do escrever, demanda da escrita. Demanda que na poesia de Paiva acontece com exigência de uma experiência de descriação, que consiste em subverter os pontos, des-criar o real, ser mais sensível do que o fato que ‘aí’ se posta [a escrita vigente] e imergir para as bordas de um horizonte outro, da escrita na sua possibilidade plural. Ou seja, da escrita como deslizamento sem fim, imanente à liberdade selvagem do escrever. É assim que a poesia se efetua em Arrastar um landau debaixo d’água: fértil de encontros, cesuras, derivações, se arrastando “contra maré”, mas ainda “na correnteza”. Portanto, na contramão, mas resvalando numa linha (de possível) que se desdobra num duplo processo de recusa – do galardão e do senso comum – numa negação que afirma outras aberturas. Já não se trata do possível como mero campo de possibilidades, fortuito, gratuito, mas o possível criado necessariamente, mesmo que a partir de uma impossibilidade. É a poesia irrompendo numa situação de combate: “arrasto um Landau debaixo d’água/ contra maré na correnteza/ não me agarro a mais nada/ o vento é meu desafeto/ me afoga o quanto pode/ o cérebro os intestinos/ num câncer que vai metamorfoseando/ enferrujando secretamente/ mas muito de propósito/ [...] um Landau afogado vai passando rasteiro/ o passeio que homem algum jamais teve/ – suave amável mórbido/ Landau para doentes/ levados para fora do alcance”. “Suave amável... Landau para doentes”. Essa passagem não deixa de ser uma imagem que remete ao ‘filósofo vitalista’, aquele para quem a compreensão da doença se amálgama a uma potência de vida, a algo que entende a doença não como inimiga, pois a doença em si, segundo o filosofo, não traz a sensação da morte e sim aguça a vontade da vida. Mas quem são os doentes? São aqueles marcados por uma força, os “grandes viventes”: são artistas, poetas, pensadores, corpos sensíveis, cujas vidas se atravessam na fronteira entre doença e saúde, oscilando numa alternância entre a potência e a debilidade. E quem são? Fotógrafas, Poetas, Reclusos, Dramaturgas, Perdedores, Escritores, Suicidas, Suspeitos, Náufragos, Desertores; uma raça forte, poderosa constelação: “todos aqueles que deixaram a sanidade para trás”. O Landau e seus doentes, tal como a nau dos loucos, se arrastam para fora do alcance da vida ordinária, para dentro de outra compreensão da vida, sem subterfúgios, total, fora dos dispositivos de controle, fora do alcance dos poderes, dentro dos abismos da experiência literária. Experiência oscilante entre escrita e furor, engendrada sob o signo de uma força bruta – força não corpórea (que age contra o corpo), cujos enunciados embaralham os contornos do mundo, desfiguram identidades, desmantelando as fronteiras e os códigos literários, alcançando imagens das quais o reflexo causa uma sensação de inquietação: “O poema é cama para transportar alguém ferido ou morto/ arte pode ser velha e ter algo de extrema violência e revolta/ [...] rogai pela carne crua da noite quebrai meus ossos ao amanhecer”. Na poesia de Paiva prevalece um movimento no qual a experiência de escrever não é ainda senão uma violência que tende a se abrir e a se fechar. Acontecimento que se abre, mas que tende a se retirar para o infinito de outras margens, num retorno excessivo. Nessa esfera, a poesia torna-se então a intimidade em luta por momentos irreconciliáveis, experiência dilacerada entre a efetuação da obra como origem e a fratura onde ela reina como ilimitada. É, portanto, a essa direção [o ilimitado] que a poesia de Paiva nos arrasta e é precisamente a essa direção que ela se desloca. Arrastar um landau debaixo d’água: momento solene cuja estranheza angustiante todo aquele que atravessá-la, de algum modo, o reconhecerá. Não se trata da aflição diante da obra, mas o desassossego diante daquilo que se arrasta com a obra: o ingovernável, fotogramas do imperceptível, o jogo das margens áridas. São experiências possíveis senão por um intenso e exaltante movimento da poesia.



Nilson Oliveira, Prefácio, Arrastar um landau debaixo d'água
Capa: Leonardo Mathias