sábado, 1 de setembro de 2012

Nos dias que antecederam o início da guerra do Iraque, Colin Powell, secretário de Estado norte-americano, ao discursar na ONU, determinou-se que se cobrisse com uma cortina uma réplica de "Guernica", ali instalada. A ONU está longe de ser uma instituição cultural e artística (a menos que se fale da arte das guerras), mas não raro as próprias instituições culturais não fazem mais do que isto: correr a cortina sobre a obra de arte. No mundo clássico a arte está nas ruas. Ela fala  nas ruas aos passantes. Dispensa críticos, curadores, especialistas. Não há ainda formas de mediar a individuação. Todos sabem como isso tudo muda e chega-se até aqui - à bilheteria. Ao espaço fechado e controlado dos museus, bibliotecas, teatros, galerias. Que mais do que dizer o deve ser visto, escolhem, elegem, disseminam. Vivemos as indiferenciações dos editais, das leis de patrocínio, dos prêmios de toda ordem. Vejam o retrospecto dos que os vencem e se perceberá o engodo da diversidade e da variação dos regimentos - os louros passam de um a outro e voltam entre eles. Explica-se aos que ainda não entenderam como tudo se dá: são sempre os mesmos, numa repetição que arromba a todos a percepção e os sentidos. Como diz Deleuze, "repartimos o espaço fixo entre os sedentários, segundo demarcações e cercados". Os panos de fundo e as cortinas "promovem" as invariações de cena. A repetição das falas e das vozes imperiais dos mestres de cerimônia - à parte o gracejo, o riso amarelo, os nervos medicados. Todos sabem como se chegou a isso. À magia dos olhos que se cerram.



ney ferraz paiva


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