Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

domingo, 23 de setembro de 2012



1.
Primeiros sinais da manhã
na madrugada ainda de mão fechada
sobre a garganta das árvores.
No escuro antes da alba
de flautas geladas,
flui mais que o orvalho
nublado do piar de pássaros:
uma, duas, três vezes
três aves até ser incontável,
por toda parte, um parque
de canoros fantasmas
na hora da nossa sorte,
amém.
Morte de horas atrás,
azar recente do ontem
irreal, absurdo
(como a palavra “azar”
afastada do vocabulário
dos supersticiosos).
Azar, azar, azar.
Piar, piar, piar
e retinir do bronze de sinos
na distância matinal,
enquanto tão próximas
são as dissonantes aves
com o silêncio da solidão
a dois no quarto.
Um oculto coro
perto
longe
como agora estamos,
unidos
separados
apesar da palavra “amem”
sem o assento de Deus
para sempre esmagando-a
também (o trono da divindade
vazio como a dispensa dos pobres).
2.
Os excitados passarinhos (assim,
no diminutivo das penas)
sabem do coração cerrado
da noite que passou?…
Na manhã de empoeiradas árvores,
o rio claro de presente
sucede o escuro mar
do que já foi,
do que ficou para trás,
e não podem saber,
os pássaros,
sobre seus anúncios de cantores
soarem mais fúnebres do que o dobrar
das matinas aos dois ouvidos humanos
divididos pelas sombras do que foi dito
e do que foi calado antes da alva,
na hora anterior ao amanhecer
dos proclamas festivos
de aves invisíveis
como o canário da infância.
De harmonia furtiva,
a manhã nova continua o breve instante
de acreditar matinalmente em Deus,
para logo maquinalmente desacreditar
Dele,
no seguimento do dia ateu das longas
iniqüidades permitidas se tudo
é apenas e tão somente
o presente interminável
que finge contar as horas
sem contas a ajustar
com nenhuma divindade boa,
má,
antiga,
nova,
impiedosa,
misericordiosa
etc.
3.
Essa também é a hora
de claramente perceber
que tudo se passa na fixidez
do permanente agora
paradoxal nas palavras
ontem
anteontem
semana passada
mês findo
ano passado
décadas atrás…
Não há fuga do tempo
que não apaga
o que nem parecia
vir a ser sob as ondas
já borrado?…
Qual era a praia alegre
do ultrapassado dia
datado no falso calendário?
“Nos separamos na manhã
de tanto de tanto de ano nenhum”,
está escrito no diário
que será esquecido num navio
afundado na mais funda fossa
dos oceanos de infelicidade.
4.
Há (efetivamente há)
o despertar do despertar
menos tímido
do que a própria aurora tateante
sobre as paredes sujas
e as limpas notas dos pássaros
cantando contra os sinos.
As aves avisam sobre um nascimento
— o da manhã —
e não sobre a morte sem céu
nem inferno,
no vazio de cima e no deserto de baixo
— Tabula Esmeralda —
de janela com vista para a rua lavada
da noite chuvosa.
A manhã?
A manhã não espera por nada,
nem traz coisa alguma para ninguém,
oca deusa trocando de roupa
à vista das inocentes aves
cantando porque não sabem
fazer outra coisa.
Como um autômato de corda
de três voltas,
ela troca de túnica nestas primeiras
horas brancas.
E, como tarde dourada,
veste para a negra noite
um longo entardecer em honra
da festa e do luto,
do mirto e do lírio dos campos.
Porém são, todas, a mesma manhã
disfarçada,
a mesma natureza indiferente
a que a vejam nua,
vestida de sol ou velada
pelo eclipse da porta
do tempo que passa
(ou não passa?)…
5.
Vai ser dada a prima volta
do parafuso da manhã
em marcha como marcham
as manhãs de relógios
sem ponteiros
marcando mudanças
somente para a ilusão
da luz neste momento
projetada sobre as árvores.
É manhã!: a primeira sessão
do cinema da realidade:
baixa comédia, alto drama,
beleza, feiúra, claridade,
obscuros mictórios públicos,
jardins luxuriantes,
praças apertadas,
ruínas e construções novas,
de cima a baixo também vestidas
de túnicas… ó Manhã!,
que mudanças poderias trazer
para isso tudo que surge
sob os auspícios
claros, claríssimos,
dos trinados da melro de ouro
de Bizâncio sem esperança
ao enviar seus sábios
ao encontro de um mar
de bárbaros?
_______________________________
Fragmento do livro Mattinata, de Fernando Monteiro, a quem sempre me refiro como um dos três melhores poetas brasileiros vivos - ainda que a literatura permaneça morta para o grande público no Brasil. E daí? O que se deve entender por isso? Que tudo se amplifica na Grande Máquina de Reprodução da Cultura do Entretenimento, financiada inclusive pelos governos dos estados onde menos se lê? Sim é isso mesmo. Mas o importante aqui é saber que duas editoras se unem para fazer passar essa extraordinária poesia por outros mares que não estes sem rotas-e-encontros em que a mediocridae segue embarcada em direção aos abismos. Trata-se da primeira co-edição de Nephelibata Edições (SC) e Edições Sol Negro (RN), unindo duas pontas extremas do país em torno da literatura. O livro se compõe de dois poemas longos — Mattinata e Para que ser poeta em tempos de penúria? — e um mais curto (Escritos no túmulo), cuja forma semelha à das lápides de necrópoles romanas. O poema que aqui aparece em fragmento é formado por um total de 25 estâncias. A capa de Mattinata é de outro extraordinário artista ignorado pelo grande público, Francisco Brennand. 

Um comentário:

  1. Fui a feira ontem. Encontrei bons livros de poesia concretista. Um, em especial, era de um lusitano. Encontrei as obras de Drummond "Boitempo" e "Discurso de primavera e outras sombras" por um preço bem acessível. E é claro, adquiri um exemplar apetitoso do Max Martins,na Edufpa. Trouxe uma antologia de poemas do Lorca. Consegui um exemplar de "Cartas a um jovem poeta" de Rilke. Anotei esse na minha lista mental desde o dia que falaste sobre ele no primeiro dia de oficina. Fui atrás de uma obra completa do Gullar e o encontrei em uma edição de luxo, toda verde, mas muito cara. Mas vou procurar sobre este que indicas. Sei o que pensas da feira do livro e respeito sua opinião, concordando com ela. A feira é um mercado de livros, onde valoriza-se o valor em capital e não em conteúdo. Os livros do Drummond estavam jogados ao léu. Encontrei livros [três para ser exato] do Haroldo Maranhão jogados em um canto a um preço tão barato que só não trouxe para casa, pois eu já não tinha mais nada na carteira. Adquiri o romance de Lygia Fagundes Telles, "Ciranda de Pedra", a um preço de banana. Mas os livros para eles são somente produtos vendáveis e nada mais. Os sebos parece que foram engolidos pelos outros estandes. Não encontrei nenhum. Encontrei livros quase desvalorizado a tal ponto que nem eram visto ou tocados. Deviam chamar "Mercado Negro Pan Amazônico do Livro", pois é exatamente isso que essa feira é.

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