Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

domingo, 23 de setembro de 2012



1.
Primeiros sinais da manhã
na madrugada ainda de mão fechada
sobre a garganta das árvores.
No escuro antes da alba
de flautas geladas,
flui mais que o orvalho
nublado do piar de pássaros:
uma, duas, três vezes
três aves até ser incontável,
por toda parte, um parque
de canoros fantasmas
na hora da nossa sorte,
amém.
Morte de horas atrás,
azar recente do ontem
irreal, absurdo
(como a palavra “azar”
afastada do vocabulário
dos supersticiosos).
Azar, azar, azar.
Piar, piar, piar
e retinir do bronze de sinos
na distância matinal,
enquanto tão próximas
são as dissonantes aves
com o silêncio da solidão
a dois no quarto.
Um oculto coro
perto
longe
como agora estamos,
unidos
separados
apesar da palavra “amem”
sem o assento de Deus
para sempre esmagando-a
também (o trono da divindade
vazio como a dispensa dos pobres).
2.
Os excitados passarinhos (assim,
no diminutivo das penas)
sabem do coração cerrado
da noite que passou?…
Na manhã de empoeiradas árvores,
o rio claro de presente
sucede o escuro mar
do que já foi,
do que ficou para trás,
e não podem saber,
os pássaros,
sobre seus anúncios de cantores
soarem mais fúnebres do que o dobrar
das matinas aos dois ouvidos humanos
divididos pelas sombras do que foi dito
e do que foi calado antes da alva,
na hora anterior ao amanhecer
dos proclamas festivos
de aves invisíveis
como o canário da infância.
De harmonia furtiva,
a manhã nova continua o breve instante
de acreditar matinalmente em Deus,
para logo maquinalmente desacreditar
Dele,
no seguimento do dia ateu das longas
iniqüidades permitidas se tudo
é apenas e tão somente
o presente interminável
que finge contar as horas
sem contas a ajustar
com nenhuma divindade boa,
má,
antiga,
nova,
impiedosa,
misericordiosa
etc.
3.
Essa também é a hora
de claramente perceber
que tudo se passa na fixidez
do permanente agora
paradoxal nas palavras
ontem
anteontem
semana passada
mês findo
ano passado
décadas atrás…
Não há fuga do tempo
que não apaga
o que nem parecia
vir a ser sob as ondas
já borrado?…
Qual era a praia alegre
do ultrapassado dia
datado no falso calendário?
“Nos separamos na manhã
de tanto de tanto de ano nenhum”,
está escrito no diário
que será esquecido num navio
afundado na mais funda fossa
dos oceanos de infelicidade.
4.
Há (efetivamente há)
o despertar do despertar
menos tímido
do que a própria aurora tateante
sobre as paredes sujas
e as limpas notas dos pássaros
cantando contra os sinos.
As aves avisam sobre um nascimento
— o da manhã —
e não sobre a morte sem céu
nem inferno,
no vazio de cima e no deserto de baixo
— Tabula Esmeralda —
de janela com vista para a rua lavada
da noite chuvosa.
A manhã?
A manhã não espera por nada,
nem traz coisa alguma para ninguém,
oca deusa trocando de roupa
à vista das inocentes aves
cantando porque não sabem
fazer outra coisa.
Como um autômato de corda
de três voltas,
ela troca de túnica nestas primeiras
horas brancas.
E, como tarde dourada,
veste para a negra noite
um longo entardecer em honra
da festa e do luto,
do mirto e do lírio dos campos.
Porém são, todas, a mesma manhã
disfarçada,
a mesma natureza indiferente
a que a vejam nua,
vestida de sol ou velada
pelo eclipse da porta
do tempo que passa
(ou não passa?)…
5.
Vai ser dada a prima volta
do parafuso da manhã
em marcha como marcham
as manhãs de relógios
sem ponteiros
marcando mudanças
somente para a ilusão
da luz neste momento
projetada sobre as árvores.
É manhã!: a primeira sessão
do cinema da realidade:
baixa comédia, alto drama,
beleza, feiúra, claridade,
obscuros mictórios públicos,
jardins luxuriantes,
praças apertadas,
ruínas e construções novas,
de cima a baixo também vestidas
de túnicas… ó Manhã!,
que mudanças poderias trazer
para isso tudo que surge
sob os auspícios
claros, claríssimos,
dos trinados da melro de ouro
de Bizâncio sem esperança
ao enviar seus sábios
ao encontro de um mar
de bárbaros?
_______________________________
Fragmento do livro Mattinata, de Fernando Monteiro, a quem sempre me refiro como um dos três melhores poetas brasileiros vivos - ainda que a literatura permaneça morta para o grande público no Brasil. E daí? O que se deve entender por isso? Que tudo se amplifica na Grande Máquina de Reprodução da Cultura do Entretenimento, financiada inclusive pelos governos dos estados onde menos se lê? Sim é isso mesmo. Mas o importante aqui é saber que duas editoras se unem para fazer passar essa extraordinária poesia por outros mares que não estes sem rotas-e-encontros em que a mediocridae segue embarcada em direção aos abismos. Trata-se da primeira co-edição de Nephelibata Edições (SC) e Edições Sol Negro (RN), unindo duas pontas extremas do país em torno da literatura. O livro se compõe de dois poemas longos — Mattinata e Para que ser poeta em tempos de penúria? — e um mais curto (Escritos no túmulo), cuja forma semelha à das lápides de necrópoles romanas. O poema que aqui aparece em fragmento é formado por um total de 25 estâncias. A capa de Mattinata é de outro extraordinário artista ignorado pelo grande público, Francisco Brennand. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CAUSAS E RAZÕES DAS ILHAS DESERTAS 

por Gilles Deleuze 

  
Ilha de Hashima, Japão


Os geógrafos dizem que há dois tipos de ilhas. Eis uma informação preciosa para a imaginação, porque ela aí encontra uma confirmação daquilo que, por outro lado, já sabia. Não é o único caso em que a ciência torna a mitologia mais material e em que a mitologia torna a ciência mais animada. As ilhas continentais são ilhas acidentais, ilhas derivadas: estão separadas de um continente, nasceram de uma desarticulação, de uma erosão, de uma fratura, sobrevivem pela absorção daquilo que as retinha. As ilhas oceânicas são ilhas originárias, essenciais: ora são constituídas de corais, apresentando-nos um verdadeiro organismo, ora surgem de erupções submarinas, trazendo ao ar livre um movimento vindo de baixo; algumas emergem lentamente, outras também desaparecem e retornam sem que haja tempo para anexa-las.  Esses dois tipos de ilhas, originárias ou continentais, dão testemunho de uma oposição profunda entre o oceano e a terra. Umas nos fazem lembrar que o mar está sobre a terra, aproveitando-se do menor decaimento das estruturas mais elevadas; as outras lembram-nos que a terra está ainda aí, sob o mar, e congrega suas forças para romper a superfície. Reconheçamos que os elementos, em geral, se detestam, que eles têm horror uns dos outros. Nada de tranquilizador nisso tudo. Do mesmo modo, deve parecer-nos filosoficamente normal que uma ilha esteja deserta. O homem só pode viver bem, e em segurança, ao supor findo (pelo menos dominado) o combate vivo entre a terra e o mar. Ele quer chamar esses dois elementos de pai e mãe, distribuindo os sexos à medida do seu devaneio. Em parte, ele deve persuadir-se de que não existe combate desse gênero; em parte, deve fazer de conta que esse combate já não ocorre. De um modo ou de outro, a existência das ilhas é a negação de um tal ponto de vista, de um tal esforço e de uma tal convicção. Será sempre causa de espanto que a Inglaterra seja povoada, já que o homem só pode viver sobre uma ilha esquecendo o que ela representa. Ou as ilhas antecedem o homem ou o sucedem.

Mas tudo o que nos dizia a geografia sobre dois topos de ilhas, a imaginação já o sabia por sua conta e de uma outra maneira. O impulso [NT] do homem, esse que o conduz em direção às ilhas, retoma o duplo movimento que produz as ilhas em si mesmas. Sonhar ilhas, com angústia ou alegria, pouco importa, é sonhar que se está separando, ou que já se está separado, longe dos continentes, que se está só ou perdido; ou, então, é sonhar que se parte de zero, que se recria, que se recomeça. Havia ilhas derivadas, mas a ilha é também aquilo em direção ao que se deriva; e havia ilhas originárias, mas a ilha é também a origem, a origem radical e absoluta. Separação e recriação não se excluem, sem dúvida: é preciso ocupar-se quando se está separado, é preferível separar-se quando se quer recriar; contudo, uma das duas tendências domina sempre. Assim, o movimento da imaginação das ilhas retoma o movimento de sua produção, mas ele não tem o mesmo objeto. É o mesmo movimento, mas não o mesmo móbil. Já não é a ilha que se separou do continente, é o homem que, estando sobre a ilha, encontra-se separado do mundo. Já não é a ilha que se cria do fundo da terra através das águas, é o homem que recria o mundo a partir da ilha e sobre as águas. Então, por sua conta, o homem retoma um e outro dos movimentos da ilha e o assume sobre uma ilha que, justamente, não tem esse movimento: pode-se derivar em direção a uma ilha todavia original, e criar numa ilha tão-somente derivada. Pensando bem, encontrar-se-á aí uma nova razão pela qual toda ilha é e permanecerá teoricamente deserta.
Para que uma ilha deixe de ser deserta, não basta, com efeito, que ela seja habitada. Se é verdade que o movimento do homem em direção à ilha retoma o movimento da ilha antes dos homens, ela pode ser ocupada por homens em geral, mas é ainda deserta, mais deserta ainda, desde que eles estejam suficientemente, isto é, absolutamente separados, desde que eles sejam suficientemente, isto é, absolutamente criadores. Sem dúvida, de fato, isso nunca é assim, se bem que o náufrago se aproxime de uma tal condição. Mas, para que isso seja assim, há de se impelir na imaginação o movimento que conduz o homem à ilha. É só em aparência que um tal movimento vem romper o deserto da ilha; na verdade, ele retoma e prolonga o impulso que a produzia como ilha deserta; longe de compromete-la, esse movimento leva-a à sua perfeição, ao seu apogeu. Em certas condições que o atam ao próprio movimento das coisas, o homem não rompe o deserto, sacraliza-o. Os homens que vêm à ilha, ocupam-na realmente e a povoam; mas, na verdade, se estivessem suficientemente separados, se fossem suficientemente criadores, eles apenas dariam à ilha uma imagem dinâmica dela mesma, uma consciência do movimento que a produziu, de modo que, através do homem, a ilha, enfim, tomaria consciência de si como deserta e sem homens. A ilha seria tão-somente o sonho do homem, e o homem seria a pura consciência da ilha. Para tanto, ainda uma vez, uma única condição: seria preciso que o homem se sujeitasse ao movimento que o conduz à ilha, movimento que prolonga e retoma o impulso que produzia a ilha. Então, a geografia se coligaria com o imaginário. Desse modo, a única resposta à questão cara aos antigos exploradores (“que seres existem na ilha deserta?”) é que o homem já existe aí, mas um homem pouco comum, um homem absolutamente separado, absolutamente criador, uma ideia de homem, em suma, um protótipo, um homem que seria quase um deus, uma mulher que seria uma deusa, um grande Amnésico, um puro Artista, consciência da Terra e do Oceano, um enorme ciclone, uma bela bruxa, uma estátua da Ilha de Páscoa. Eis o homem que precede a si mesmo. Na ilha deserta, uma tal criatura seria a própria ilha deserta na medida em que ela se imagina e se reflete em seu movimento primeiro. Consciência da terra e do oceano, tal é a ilha deserta, pronta para recomeçar o mundo. Porém, dado que os homens, mesmo voluntários, não são idênticos ao movimento que os põe na ilha, eles não reatam o impulso que a produz; é sempre de fora que encontram a ilha e o fato de sua presença contraria, nela, o deserto. Portanto, a unidade da ilha deserta e do seu habitante não é real, mas imaginária, como a ideia de ver atrás da cortina quando ali não se está. E mais: é duvidoso que a imaginação individual possa por si mesma elevar-se até essa admirável identidade; veremos que isso requer a imaginação coletiva no que ela tem de mais profundo, nos ritos e nas mitologias.
A confirmação, pelo menos negativa, de tudo isso pode ser encontrada nos próprios fatos, quando se pensa naquilo que uma ilha deserta é realmente, geograficamente. A ilha e ilha deserta, com mais forte razão, são noções extremamente pobres ou frágeis do ponto de vista da geografia; elas têm apenas um fraco teor científico. Isso é um privilégio para elas. Não há unidade objetiva alguma no conjunto das ilhas. Menos ainda nas ilhas desertas. Sem dúvida, a ilha deserta pode ter um solo extremamente pobre. Deserta, ela pode ser um deserto, mas isso não é necessário. Se o verdadeiro deserto é inabitado, isso ocorre na medida em que não apresenta as condições de direito que tornariam possível a vida, vida vegetal, anima ou humana. Contrariamente, que a ilha deserta esteja inabitada mantém-se como puro fato devido às circunstâncias, isto é, aos arredores. A ilha é o que o mar circunda e aquilo em torno do que se dão voltas, é como um ovo. Ovo do mar, ela é arredondada. Tudo se passa como se ela tivesse posto em torno de si o seu deserto, fora dela. O que está deserto é o oceano que a circunda inteiramente. É em virtude das circunstâncias, por razões distintas do princípio do qual ela depende, que os navios passam ao largo e não param. Mais do que ser um deserto, ela é desertada. Desse modo, mesmo que ela, em si mesma, possa conter as mais vivas fontes, a fauna mais ágil, a flora mais colorida, os mais surpreendentes alimentos, os mais vivos selvagens e, como seu mais precioso fruto, o náufrago, além de contar, finalmente, por um instante, com o barco que a vem procurar, apesar de tudo isso ela não deixa de ser a ilha deserta. Para modificar tal situação, seria preciso operar uma redistribuição geral dos continentes, do estado dos mares, das linhas de navegação.
Novamente, isso quer dizer que a essência da ilha deserta é imaginária e não real, mitológica e não geográfica. Simultaneamente, seu destino está submetido às condições humanas que tornam possível uma mitologia. A mitologia não nasceu de uma simples vontade, e os povos admitiram bem cedo não compreender seus mitos. É nesse mesmo momento que uma literatura começa. A literatura é o ensaio que procura interpretar muito engenhosamente os mitos que já não se compreende, no momento em que eles já não são compreendidos, porque já não se sabe sonha-los e nem reproduzi-los. A literatura é o concurso dos contra-sensos que a consciência opera naturalmente e necessariamente sobre os temas do inconsciente; como todo concurso, ela tem seus preços. Seria preciso mostrar como a mitologia entra em falência nesse sentido e morre em dois romances clássicos da ilha deserta, Robinson e Suzana. Suzana e o Pacífico [DL] acentua o aspecto separado das ilhas, a separação da moça que aí se encontra; Robinson [NT] acentua o outro aspecto, o da criação, o do recomeço. É verdade que são bem diferentes as maneiras pelas quais a mitologia entra em falência nesses dois casos. Com a Suzana de Giraudoux a mitologia sofre a morte mais bonita, a mais graciosa. Com Robinson, a mais penosa. É difícil imaginar um romance tão aborrecido, e é uma tristeza ver ainda crianças lendo-o. A visão de mundo de Robinson reside exclusivamente na propriedade e jamais se viu proprietário tão moralizante. A recriação mítica do mundo a partir da ilha deserta cede lugar à recomposição da vida cotidiana burguesa a partir de um capital. Tudo é tirado do barco, nada é inventado, tudo é penosamente aplicado na ilha. O tempo é tão-só um tempo necessário ao capital para obter um ganho ao final de um trabalho. E a função providencial de Deus é garantir o lucro. Deus reconhece os seus, as pessoas de bem, porque elas têm belas propriedades, ao passo que os maus têm péssimas propriedades, maltratadas. A companhia de Robinson não é Eva, mas Sexta Feira, dócil ao trabalho, feliz por ser escravo, muito rapidamente enfastiado de antropofagia. Todo leitor sadio sonharia vê-lo finalmente comer Robinson. Esse romance representa a melhor ilustração da tese que afirma o liame entre capitalismo e protestantismo. Robinson Crusoe desenvolve a falência e a morte da mitologia no puritanismo. Tudo muda com Suzana. Com ela, a ilha deserta é um conservatório de objetos já prontos, de objetos luxuosos. A ilha já é imediatamente portadora daquilo que a civilização levou séculos para produzir, para aperfeiçoar, amadurecer. Porém, com Suzana, a mitologia também morre, é verdade que de uma maneira parisiense. Suzana nada tem para recriar; a ilha deserta lhe dá o duplo de todos os objetos da cidade, de todas as vitrines de magazines, duplo inconsistente, separado do real, pois ele não recebe a solidez que os objetos ganham ordinariamente nas relações humanas, no seio das vendas e compras, das trocas e dos presentes. É uma moça insípida. Seus companheiros não são Adão, mas jovens cadáveres; e quando reencontrar os homens vivos, ela os amará com um amor uniforme, à maneira de párocos, como se o amor fosse o limiar mínimo de sua percepção.
Trata-se de reencontrar a vida mitológica da ilha deserta. Contudo, na própria falência, Robinson nos dá uma indicação: inicialmente, ele precisaria de um capital. Quanto à Suzana, antes de tudo, ela estava separada. E nem ele nem ela, finalmente, poderiam ser o elemento de um par. É preciso restituir essas três indicações à sua pureza mitológica e retornar ao movimento da imaginação que faz da ilha deserta um modelo, um protótipo da alma coletiva. Primeiramente, é verdade que não se opera a própria criação a partir da ilha deserta, mas a re-criação, não o começo, mas o re-começo. Ela é a origem, mas origem segunda. A partir dela tudo recomeça. A ilha é o mínimo necessário para esse recomeço, o material sobrevivente da primeira origem, o núcleo ou o ovo irradiante que deve bastar para re-produzir tudo. Evidentemente, isso tudo supõe que a formação do mundo se dê em dois tempos, em dois estágios, nascimento e renascimento; supõe que o segundo seja tão necessário e essencial quanto o primeiro; supõe, portanto, que o primeiro esteja necessariamente comprometido, que ele tenha nascido para uma retomada e já re-negado numa catástrofe. Somente há um segundo nascimento porque houve uma catástrofe e, inversamente, há catástrofe após a origem porque deve haver, desde a origem, um segundo nascimento. Podemos encontrar em nós a fonte desse tema: para apreciar a vida, nós a alcançamos não em sua produção, mas em sua reprodução. O animal, cujo modo de reprodução se ignora, ainda não ocupou lugar entre os vivos. Não basta que tudo comece, é preciso que tudo se repita, uma vez encerrado o ciclo das combinações possíveis. O segundo momento não é aquele que sucede o primeiro, mas é o reaparecimento do primeiro quando se encerrou o ciclo dos outros momentos. A segunda origem, portanto, é mais essencial que a primeira, porque ela nos dá a lei da série, a lei da repetição, da qual a primeira origem apenas nos dava os momentos. Porém, mais ainda do que nos nossos devaneios, esse tema se manifesta em todas as mitologias. Ele é bem conhecido como mito do dilúvio. O arco se detém na única porção da terra que não está submersa, lugar circular e sagrado de onde o mundo recomeça. É uma ilha ou uma montanha, ambas ao mesmo tempo, pois a ilha é uma montanha marinha e a montanha é uma ilha ainda seca. Eis a primeira criação tomada numa recriação que se concentra numa terra santa ou no meio do oceano. Segunda origem do mundo, mais importante do que a primeira é a ilha santa: muitos mitos nos dizem que aí se encontra um ovo, um ovo cósmico. Como ela forma uma segunda origem, ela é confiada ao homem, não aos deuses. Ela está separada, separada por toda a espessura do dilúvio. O oceano e a água, com efeito, são o princípio de uma tal segregação que, nas ilhas santas, são constituídas por comunidades exclusivamente femininas, como as de Circe e Calipso. Enfim, o começo partia de Deus e de um par, mas não o recomeço, que parte de um ovo, de modo que a maternidade mitológica é freqüentemente uma partenogênese. A ideia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha deserta, sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma para aprofunda-lo e recua-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou desse mais profundo.

Tradução de
 Luiz B. L. Orlandi



Texto manuscrito dos anos 50, inicialmente destinado a um número especial consagrado às ilhas desertas pelo magazine Nouveau Fémina. Esse texto nunca foi publicado. Na bibliografia esboçada por Deleuze em 1989 ele figura sob a rubrica “Diferença e repetição”.

NT [Apesar de dispormos da palavra elã, traduziremos o termo francês élan por impulso].

DL [L. Giraudoux, Suzanne et lê Pacifique, Paris, Grasset, 1922, reeditado em Oeuvres romanesques complètes,vol. I, Paris, Gallimard, col. “Bibliothèque de la Pléiade”].

NT [Daniel Defoe (1660-1731), Robinson Crusoe  (1719-1722)]. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A alta costura de Giselle Ribeiro vai parar no Hospício


Prêt-à-porter


Primeiro leia este livro
sem compromisso maior.
E se algum poema
nele contido
lhe vestir bem,
sem precisar de ajustes,
ele será todo seu.

Para ir à igreja, 
um encontro marcado,
um passeio no bosque,
uma reunião de negócios,
piscina, praia ou cinema.
Para fazer cooper, yoga
ou jogar sinuca.

Afinal, para que mais serve o poema?



Tarefas da vida cotidiana



Lavamos
todos os dias
a palavra amor
até desbotar.
Passamos a ferro
todos os dias
a palavra desejo
até evaporar.
Depois,
lavamos as mãos.

E quando a iluminura 
do amor se apaga,
gradativamente,
dizemos aos sonhos:
a convivência mata.



Desintoxicação



ela amava as coisas.
As máquinas todas
eram as suas pulsações:

máquina de calcular
máquina de escrever
máquina de fazer filmes e fotografias
máquina de lavar
máquina de secar...

Mas quando viu
que o coração e os olhos
já estavam secos
Ela quis se descoisar.


Giselle Ribeiro, Pequeno livro de poemas para vestir bem, 2011.
imagem: ney ferraz paiva

domingo, 16 de setembro de 2012

Uma criança

Em pensamento, minha mãe montava a casa para seus pais. Isso dá uma biblioteca magnífica, disse ela. De fato, era uma biblioteca magnífica aquela em que, já poucas semanas depois de pago o adiantamento do aluguel, e graças a minha mãe e à mudança para ali de meus avós, se transformou o cômodo da casa de Ettendorf que dava para o sudeste. Com um adiantamento pago pelo editor, um carpinteiro foi incumbido de construir o que meu avô projetara. Um caminhão de livros e manuscritos estacionou diante da casa e as estantes se encheram. Desde o início da juventude, desde a Basiléia, como sempre ele dizia, meu avô juntava livros, não tinham dinheiro, mas cada vez um número maior de livros. Milhares deles. No escritório da cabana do Mirtel não havia lugar para eles, que, em grande parte tinham sido abrigados no sótão. Agora, as paredes do novo escritório em Ettendorf estavam lotadas. Eu nem sabia que tinha juntado tanta riqueza intelectual, disse ele, e tanta pobreza também. Hegel, Kant, Schopenhauer eram nomes que eu conhecia e que para mim sempre haviam ocultado enorme mistério. E Shakespeare, então!, disse meu avô. São luminares, inatingíveis. Sentado ali, ele fumava seu cachimbo, tinha sido melhor eu não ter me matado, mas esperado por ele, disse a mim mesmo. Estávamos prestes, a partir de Ettendorf, a descortinar um novo paraíso para nós, como o de Seekirchen, o fato de ser agora um paraíso bávaro, e não austríaco, já não incomodava. A lembrança de Seekirchen e, no tocante ao meu avô, a de Viena continuavam a ser fundamentais. Mas pouco a pouco a transição para o idílio bávaro se completou com sucesso. Teve lá suas grandes vantagens. Decerto a Baviera era católica, arquicatólica, e nazista, arquinazista, mas como na região em torno do Wallersee, estava ali em terras pré-alpinas, e portanto inteiramente profícuas às intenções do meu avô; seu pensamento, ao contrário do que se temia, não foi sufocado, mas ganhou asas, como se verificou mais tarde. Ele trabalhava com ímpeto maior do que em Seekirchen e afirmava ter, de fato, entrado agora em sua fase decisiva como escritor, alcançara determinado patamar filosófico. Eu não sabia o que aquilo significava. Sempre se dizia apenas que ele estava trabalhando em seu grande romance, e minha avó sublinhava essa observação constantemente sussurrada dizendo vai ter mais de mil páginas. Para mim era um completo mistério como uma pessoa podia se sentar e escrever mil páginas. Que escrevesse cem já me era totalmente incompreensível. Por outro lado, ainda ouço meu avô dizendo que tudo que escreve é besteira. De onde, então, ele tinha ido tirar aquela ideia de escrever mil páginas de besteira? Ele sempre tinha ideias as mais incríveis, mas sentia que elas eram o motivo do seu fracasso. Fracassamos todos, dizia sempre. E esse é também o meu pensamento central constante. Naturalmente, eu não imaginava o que era fracassar, o que isso significava ou podia significar, embora eu próprio atravessasse um processo rumo ao fracasso, ininterrupto, fracassava inclusive com incrível consistência: na escola. Meus esforços de nada adiantavam, minhas tentativas sempre renovadas de me corrigir morriam ainda no nascedouro. Os professores não tinham paciência e me afundavam cada vez mais no pântano do qual deveriam me resgatar. Pisavam-me onde podiam. Também eles gostavam de me chamar de Esterreicher, atormentavam-me com isso, perseguiam-me dia e noite, eu não tinha sossego. Errava na hora de somar, errava ao dividir e logo já não distinguia o direito do avesso. Escrevia com uma caligrafia que, tão logo entregue a tarefa, era alardeada como exemplo supremo de dispersão e negligência ilimitadas. Praticamente não se passava um único dia em que eu não tivesse de me apresentar para levar alguns golpes de vara. Sabia por quê, mas nãos sabia como fora parar ali. Logo fui relegado à categoria dos chamados piores alunos, à horda dos idiotas, que acreditavam que eu fosse um deles. Para mim não havia escapatória. Os ditos inteligentes me evitavam. Não demorou muito para que eu percebesse que não pertencia nem a um grupo nem ao outro, que não me encaixava em nenhum deles. A isso veio se somar o fato de eu não ter pais de respeito, como se dizia, de ser, por assim dizer, o rebento de gente pobre, filho de ninguém. Não tínhamos uma casa, apenas morávamos numa casa, e aquilo já dizia tudo.


Thomas com Ferdl, Graml e Franziska no pátio Wieland Schmied, 1971. 

Thomas Bernhard, Origem, Companhia das Letras, 2006.
Foto: Erika Smith

sábado, 15 de setembro de 2012

























Apresentação
Todos os textos sobre arte são uma mediação. Mas o que dizer do suporte? Há diferença em publicar em jornal, revista, livro e no espaço virtual? Ou tudo estará numa mesma mediação entre fatores tão diversos como o da distância que vai das imagens às palavras, do público especializado ao mais disperso e espontâneo, do autor inventor ao autor crítico e por aí afora. Com tudo o que sabemos sobre a impossibilidade da critica e da representação/símbolos/imagens/ícones contemporâneos. Com tudo o que sabemos sobre a impossibilidade das palavras e simultaneamente sobre a impossibilidade de sermos e existirmos sem elas. Aí o funcionamento do real assume primazia sobre o real.  Como ecoa a canção do U2: Even better than the real thing.

Temário
·         A mensagem: é pra você que escrevo, hipócrita (Mallarmé, Baudelaire, Walt Whitman) - o problema da diferença e transparência no lance de dados virtual;
·         O emissor: sofrer no mundo virtual pega bem? Os blogs confessionais, diários e outros dramas metafísicos;
·         O receptor: o público, o êxito, o sucesso – também no mundo virtual as abelhas só se agrupam perto de sua própria rainha?
·         O código: a estética do belo e do sublime na imensa Máquina abstrata – o real, o individual, o simulacro, a imitação, o rizoma coletivo. 
                     
                          Realização:

            

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Osman Lins: “meios eletrônicos são liquidificadores mentais”
Entrevista por Alberto da Cunha Melo
Afirmando que os meios eletrônicos de comunicação são liquidificadores mentais ou culturais, o romancista pernambucano Osman Lins, radicado há anos no sul do país, acredita ainda que “não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta”. E cita um exemplo esclarecedor: “Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação”.
Possuidor de um estilo que, aproveitando uma análise dos irmãos Campos em relação a Guimarães Rosa, é uma espécie de microcosmo, Osman Lins é um dos mais penetrantes visionários da atual ficção brasileira. Visionário não de espectros, mas de seres complexos, reais. Traduzido para o francês, alemão e inglês, Osman Lins alcançou grande repercussão na Europa com o seu livro “Nove Novena” (publicado em Paris sob o título de “Retable de Sainte Joana Carolina”). Fez parte das antologias: “Die Reiher und andere brasiliannische Erzahlungen”, Horst Erdmann Verlag, Hamburg (Trad. Curt_Meier Clason), “Moderne Brasilianische Erzahler, Walter Verlag (Trad. Carl Heupel), e “New Directions 25 (an international Anthology of Prose & Poetry) – New Directions, New York (Trad. Clotilde Wilson).
LÍNGUA PORTUGESA
Falando sobre os fatores que determinam a penetração de uma obra em língua portuguesa nos outros países, o romancista de “O fiel e a Pedra” declarou: “Normalmente, a escolha de um livro para edição no estrangeiro, seja ou não escrito em português, faz-se mediante duas condições básicas: alta qualidade literária ou boas possibilidades comerciais. Há também um tipo de livro nosso que interessa muito: o documento social ou político. Para nós, brasileiros, é em geral mais difícil o acesso a editores europeus e americanos que para os escritores de língua espanhola”.
E explica: “Isto porque todas as editoras têm leitores em espanhol e relativamente poucas as que têm leitores em português. Mas, de um modo ou de outro, vamos furando a barreira e nomes como Autran Dourado e Dalton Trevisan, infelizmente ainda não muito lidos no Brasil, já ultrapassaram fronteiras. Ainda este ano será editado na França um romance do nosso Hermilo Borba Filho”.
UNIVERSAL E REGIONAL
Confessando que não o estimula o desejo de conceituação do universal e do regional na arte, ou mais especificamente, na literatura, Osman Lins, com prudência e a segurança de seus depoimentos, declarou: “De qualquer modo, por ser muito especializada ou acadêmica, capaz de interessar apenas a um grupo restrito de pessoas, hesito em abordar este assunto numa entrevista. Eu diria apenas que “querer ou procurar ser” regional ou universal constitui erro desastroso. Talvez deva confessar, aqui, que, tendo vivido sempre intensamente a literatura, certos problemas nunca me preocuparam. Esse foi um deles. Nunca indaguei se seria ou se deveria ser regionalista ou universalista, assim como nunca me interessou saber a diferença entre novela e romance – e outros problemas paralisantes.”
LIVRO & ELETRÔNICA
McLuhan, com todas as suas distorções da história e sua técnica “poética” do “palavra por palavra” ainda continua na ordem do dia para muitos vanguardistas auto-exilados do mundo verbal, ou seja, da “Galáxia Gutenberg”. Para esses vanguardistas e para muitos leitores uma pergunta persiste: “com o extraordinário progresso dos meios eletrônicos de comunicação, conseguirão eles chegar a sucedâneos do livro? Osman Lins é dos poucos que têm uma concepção segura sobre o tema: “Sabe? Os dentistas têm observado que, com os liquidificadores os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim, é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação. Mas os meios eletrônicos de comunicação, o que são eles?”
E, respondendo à sua própria pergunta, considera-os “liquidificadores mentais ou culturais. Não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta. Por outro lado, parece-nos muito mais digna a relação leitor-livro que a relação receptor-meio eletrônico. Um livro não entra pelo seu ouvido ou pelo seus olhos. Você não é, ante o livro um ser passivo. Um livro você lê. Você é, diante do livro, alguém que age: você o conquista. Palavra a palavra, as suas páginas. Pense mais: em que outro meio encontraremos, como no livro, um campo onde a liberdade pode esplender com mais força?”
Sobre “Nove novena” um dos seus livros mais famosos diz Osman Lins: “Eu diria que, com ‘Nove Novena’, restringe-se – ou é menos aparente – a dívida que todo escritor tem para com os que o antecederam. Isto é: com ‘Nove Novena’ eu atravesso um certo limiar e conquisto uma visão mais pessoal do mundo e da própria narrativa. Aliás, eu gostaria que uma das novelas desse livro fosse mais divulgada no Recife. Enviei, recentemente, uma carta à Editora Martins comunicando que não mais desejo ter os meus livros publicados por intermédio daquela casa. Uma das razões da minha decisão é certa ausência de dinamismo na organização da empresa, coisa muito prejudicial à divulgação de uma obra literária, principalmente se esta obra não segue os figurinos já conhecidos ou se o autor não pertence aos famosos júris da TV”.
Cita, em seguida, a sua novela que gostaria de ver nas mãos dos recifenses: “Intitula-se ‘Perdidos e Achados’. Há, nessa novela, uma grande presença do Recife: narra a história de uma criança que desaparece, certa manhã de verão, na praia de Boa Viagem. Quanto a ‘Avalovara’, sendo uma obra ampla e bastante complexa, torna-se difícil de falar sobre ela numa conversa breve. Também se passa no Recife e em Olinda uma das partes do livro, a que narra a paixão – atraibuída e exaltada – do protagonista por um andrógino. Acrescento que ‘Avalovara’ é nome inventado e refere-se a um pássaro também imaginário, que surge a certa altura da obra. Esse pássaro, entre outras coisas, é um símbolo do meu romance, no qual, por assim dizer, está toda a minha experiência como escritor e como homem”.
Jornal do Commercio – 18 de julho de 1973
Publicado originariamente no blog "Café Colombo" do Renato Lima

domingo, 9 de setembro de 2012

"Quando todos calam", performance, Berna Reale


A LOUCURA SEM REPOUSO

Toda doença pode ser chamada doença da alma.
Novalis

aqui sobre a mesa à nossa
frente está Berna Reale
a paisagem de uma cidade
enfermaria a céu aberto
é feita de carne
deteriora despedaça separa
arrasa como uma sombra no
pulmão
tosses suores asfixias
em busca de ar fresco
pessoas descem ruas
mercados rios praças
uma musculatura louca
também isso a arte faz
traz cadáveres à rua
pra revoar os pássaros do
horror
deixar falar os balbucios do
medo
os braços da morte não estão
mais
cruzados diante do espectador
aonde essa doença vai dar
sem penicilina & cânfora
a um sem-número de nãos?
a uma dor mais intensa?
aqui sobre a mesa à nossa
frente está Berna Reale
o corpo nu sem respiração
ligado à loucura & à morte
ainda assim quer viver
absorto em seu mal
quer seguir respirando
aspirar o ar necessário
pra nunca mais precisar
voltar à superfície


Ney Ferraz Paiva, Arrastar um landau debaixo d'água

sábado, 8 de setembro de 2012

deixo que a sombra siga seu caminho


fria como sempre sobre o travesseiro
a poesia vira & dorme seus pesadelos

não me deixa apagar a luz

mas também não posso ler
palavras suspensas no teto
como um livro ou uma tela
está doente cospe sangue
seus olhos devoram a luz

deixo que a sombra siga seu caminho
a face morta do mundo me comprime




ney ferraz paiva

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

anne escreveu um bilhete & saiu
está farta do gás carbônico dos
meus livros: "preciso respirar"



Anne Sexton

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

almocei à tarde com Robert Lowell
fartas porções de cansaço & silêncio
por toda a casa pudemos ouvir o mar


Robert Lowell

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

nadei hoje cedo com Anne Sexton
fiz o que o médico recomendou
"deixe os livros nada um pouco"


Anne Sexton


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Prefácio, Michel Foucault



Deveria escrever um novo prefácio para este livro já velho. Confesso que a ideia não me agrada, pois isso seria inútil: não deixaria de querer justificá-lo por aquilo que ele era e de reinscrevê-lo, tanto quanto possível, naquilo que está acontecendo hoje. Possível ou não, hábil ou não, isso não seria honesto. Acima de tudo, não seria conforme tudo aquilo que deve ser, com relação a um livro, a reserva daquele que se escreveu. Um livro é produzido, evento minúsculo, pequeno objeto manejável. A partir daí, é aprisionado num jogo contínuo de repetições; seus duplos, a sua volta e bem longe dele, formigam; cada leitura atribui-lhe, por um momento, um corpo impalpável e único; fragmentos de si próprio circulam como sendo sua totalidade, passando por contê-lo quase tudo e nos quais acontece-lhe, finalmente, encontrar abrigo; os comentários desdobram-no, outros discursos no qual enfim ele mesmo deve aparecer, confessar o que se recusou a dizer, liberta-se daquilo que, ruidosamente, fingia ser. A reedição numa outra época, num outro lugar, ainda é um desses duplos: nem um completo engodo, nem uma completa identidade consigo mesmo

Para quem escreve o livro, é grande a tentação de legislar sobre todo esse resplandecer de simulacros, prescrever-lhes uma forma, carregá-los com uma identidade, impor-lhes uma marca que daria a todos um certo valor constante.

Sou o autor: observem meu rosto ou meu perfil; é a isto que deverão assemelhar-se todas essas figuras duplicadas que vão circular com meu nome; as que se afastarem dele, nada valerão, e é a partir de seu grau de semelhança que poderão julgar do valor dos outros. Sou o nome, a lei, a alma, o segredo, a balança de todos esses duplos.

Assim se escreve o Prefácio, ato primeiro com o qual começa a estabelecer-se a monarquia do autor, declaração da tirania: minha intenção deverá ser seu preceito, leitor; sua leitura, suas análises suas críticas se conformarão àquilo que pretendi fazer; entendam bem minha modéstia: quando falo dos limites de meu empreendimento, pretendo limitar sua liberdade, e se proclamo a sensação de não ter estado à altura de minha tarefa é porque não quero deixar-lhe o privilégio de contrapor a meu livro o fantasma de um outro, bem próximo dele porém mais belo que ele. Sou o monarca das coisas que disse e mantenho sobre elas uma soberania eminente: a de minha intenção e do sentido que lhes quis atribuir.

Gostaria que um livro, pelo menos da parte de quem o escreveu, nada fosse além das frases de que é feito; que ele não se desdobrasse nesse primeiro simulacro de si mesmo que é um prefácio, e que pretende oferecer sua lei a todos que, no futuro, venham a formar-se a partir dele. Gostaria que esse objeto-evento, quase imperceptível entre tantos outros, se recopiasse, se fragmentasse, se repetisse, se simulasse, se desdobrasse, desaparecesse enfim sem que aquele a quem aconteceu escrevê-lo pudesse alguma vez reivindicar o direito de ser seu senhor, de impor o que queria dizer, ou  dizer o que o livro deveria ser. Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível.

É por isso que, ao pedido que me fizeram de escrever um novo prefácio para este livro reeditado, só me foi possível responder uma coisa: suprimamos o antigo prefácio. Honestidade será isso. Não procuremos nem justificar esse velho livro, nem reinscrevê-lo hoje; a série dos eventos à qual ele pertence, e que é sua verdadeira lei, está longe de estar concluída. Quanto à novidade, não finjamos descobri-la nele, como uma reserva secreta, uma riqueza inicialmente despercebida: ela se fez apenas com as coisas sobre ele ditas, e dos eventos dos quais se viu prisioneiro.

 Mas você acaba de fazer um prefácio!
 Pelo menos é curto.




Michel Foucault, “História da Loucura”, 1972
tradução José Teixeira Coelho Neto
Perspectiva, 2010, 9 ed.

O POEMA COMO UMA CÂMERA QUE SE APROXIMASSE 

PARA DAR UM CLOSE


oficina de poesia contemporânea para jovens poetas
com Ney Ferraz Paiva


RESUMO: O espaço da literatura na atualidade dispensa as influências totalizantes e apaziguadoras de outrora: de uma Cecília Meireles a um Carlos Drummond de Andrade. A poesia contemporânea movimenta-se pelas conexões com os canais abertos na internet, dos blogs e das revistas eletrônicas. Ela quer outro testemunho de linguagem e de escrita, mais instantânea e fragmentada – não só circular pelas ruas, ir à praça e ao shopping. Os poetas se lançam inteiros num mar de sobressaltos para escrever poemas que até então não atravessariam a escuridão tumular das gavetas. Muito próximos das redes e das selfes, experimentam a superexposição - simulacro e simulação do tempo e dos seus resíduos. Algo que o escritor guatemalteco Augusto Monterroso antevê num conto de apenas 37 letras: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. 





Período 10 a 14 de setembro 2012
Horário 15 as 18 horas
Inscrições abertas e gratuitas


INSTITUTO DE ARTES DO PARÁ – IAP
Praça Justo Chermont, 236, Nazaré
 Belém-PA, (91) 4006-2920



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ESTAÇÃO PARA LANÇAR-SE AO MAR



perdi o mês de agosto
como vou perder setembro
caiu-me de meu bolso
em voltas pelo mundo
na enchente de certo rio
no salto & sobressalto
no beco naquela noite –
na chuva na imundície
desnudo de agosto
setembro me reveste
igual a um morto
que o tempo debelaria





ney ferraz paiva
paulo ponte souza

sábado, 1 de setembro de 2012

CARTA DE EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO à organização do "Seminário vômito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura"

Essa semana, uma decisão judicial paralisou a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. A dimensão simbólica e material da obra não pode ser menosprezada, já que ela cristaliza um projeto político, econômico e antropológico desenvolvimentista (ou melhor, crescimentista) e que consiste em destruir a multiplicidade sócio-ambiental das formas de vida 

em nome de um padrão de riqueza etno- e antropocêntrico: a conversão de todo fluxo em energia, de todo curso em recurso, de toda diferença em poder. Uma das acionárias da Norte Energia, responsável pela construção de Belo Monte, é a Vale, empresa com um histórico lamentável de desrespeito aos direitos humanos e de devastação ambiental, tendo passado, além do mais, por um vexaminoso processo de privatização, ao mesmo tempo em que projeta em seu horizonte futuro diversos projetos que virão ampliar esse rol nefasto de feitos. Não por acaso, a Vale recebeu o “honroso” prêmio de “Pior Empresa do Mundo” esse ano. Assim sendo, espantamo-nos enormemente ao saber que a Vale — bem como as Organizações Globo, conhecidas pelo seu departamento de censura interna durante a Ditadura militar e suas recorrentes alianças com os donos do poder do turno — patrocina o seminário Vomito e não: práticas antropoêmicas na arte e na cultura, para o qual fomos convidados. Em primeiro lugar, porque nunca fomos informados sobre tais patrocinadores, dos quais só tivemos notícia hoje (ontem) ao vermos o material de divulgação do evento. Mas, acima de tudo, porque não é possível compactuar com as práticas de tais empresas, especialmente em um seminário que se propõe a discutir a antropofagia oswaldiana, uma outra concepção de vida e mundo (além de uma prática artística) baseada nas cosmogonias e modos de vida ameríndios, diversa daquela gerida pelo que Oswald de Andrade chamou de “conúbio do Capital, do Oportunismo e do Terror”, conúbio materializado, inter alia, por corporações como a Globo e a Vale. Não será um total contrassenso? Esperemos que seja apenas isso, e não uma triste e reveladora convergência, uma vez que a proposta do seminário insinua uma insuficiência da antropofagia e sugere, no lugar desta, pensar a antropoemia, aquela prática que exclui pela inclusão, que impõe um modo de vida pela exclusão de todos os outros, que busca eliminar até mesmo toda possibilidade de modo de vida — uma prática que, como os zumbis dos filmes hollywoodianos, tenta nulificar toda alteridade em nome do mesmo (do morto-vivo). Esperemos, de fato, que seja apenas um total contrassenso. Mas de qualquer forma, não podemos participar dele.








Eduardo Viveiros de Castro
imagem: Marco Aresta