Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ERA UMA VEZ FERNANDO DINIZ



quis ser vilão de história em quadrinhos
anjo de rua com plumagem de pássaros
 isso de qualquer forma acabou sendo
paisagens estriadas desertos bifurcados
face selvagem martelada no painel caos
de longeva infância & breve vida adulta
tipo exato de louco que se quis moldar
pedra borboleta margarida estrela
razão limbo incerto da alvorada



Fernando diniz



Ney Ferraz Paiva

segunda-feira, 16 de abril de 2012

"cambridge", desenho de sylvia plath


brasília


será que elas existem
essas pessoas com torso de aço
cotovelos e olhos alados

aguardando tufos
de nuvem, para lhes dar expressão
esses super-homens! 

e o meu bebê deixado num prego
impulsionado, conduzido
adentro, grita, obeso

ossos exalam a distância.
e eu, quase extinta,
seus três dentes de corte

 acertam meu polegar 
e a estrela,
a velha história.

no caminho encontro ovelhas e vagões,
terra vermelha, sangue materno.
ó tu que devoras

homens como raios de sol, deixe
este
espelho, desfigurado, não redimido

pela aniquilação da pomba,
a glória
o poder, a glória.


sylvia plath, londres, 1962
livre versão: ney ferraz paiva


ao centro, quadro com o poema "brasília" ilustrado com o desenho "cambridge".
exposição de sylvia plath na mayor gallery, londres, 2011.



Will they occur,
These people with torso of steel
Winged elbows and eyeholes

Awaiting masses
Of cloud to give them expression,
Thes super-people! 
And my baby a nail
Driven, driven in.
He shrieks his grease

Bones nosing for distance.
And I, nearly extinct,
His three teeth cutting
Themselves on my thumb 
And the star,
The old story.

In the lane I meet sheep and wagons,
Red earth, motherly blood.
O You who eat

People like light rays, leave
This one
Mirror safe, unredeemed

By the dove's annihilation,
The glory
The power, the glory.


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domingo, 15 de abril de 2012


tédio

folhas de chá, negando visões de desastre,
prometem vida que não vai se cumprir:
o tédio cruza a palma de sua mão
mas nem a cigana prevê perigo aí.
estéril advertência: o cavaleiro ingênuo
recua aos dragões e ogres impotentes
enquanto princesas blasées consideram
absurdo inclinar-se, na arena, ao terror.


a besta, no bosque de henry james, não saltará,
ofuscando ainda mais a fama do herói em crise;
e quando anjos à espreita soarem a divina trombeta,
a uma plateia entediada ou, afinal, de olhar ansioso,
atenta ao desafio - não aos apelos e aos prêmios,
não deixará escapar pela porta da ruína, mulher e tigre.


sylvia plath
livre versão: ney ferraz paiva

terça-feira, 10 de abril de 2012

Protesto poético 


Minha mãe enterrada
é exumada para reprises...

Agora querem fazer um filme
Para os incapazes
De imaginar o corpo
Com a cabeça no forno.
Os comedores de amendoim, divertidos
Com a morte de minha mãe, irão para casa ...
Talvez comprem o vídeo.
Só precisarão pressionar 'pause'
Se quiserem colocar a chaleira no fogo
Enquanto minha mãe segura sua respiração na tela
Para terminar de morrer depois do chá...


Eles pensam que eu deveria adorar ... eles pensam
Que eu deveria lhes dar as palavras de minha mãe
Para encher a boca de seu monstrengo
Sua Boneca Sylvia Suicida
Que vai saber andar, falar
E morrer quando eles quiserem
Morrer e morrer de novo
Viver sempre morrendo.







Frieda Hughes (excerto)