Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

POEMA PRA MAX MARTINS

PRA LER DEPOIS DA CHUVA



encerrar uma cena sem o último aceno
ir uma vez mais à transfiguração do mar
ao dentista de ônibus contestar a beleza
passageiro sem medo de afinar trovões
ao bar pra errar mais do que beber-fumar
dentes fumados hálito impiedoso de envenenar
deixar a carcaça do senso comum apodrecer
que vão dizer disso? seu olhar de espião russo
não flagrar a chuva – dela não ter sido uma palavra bela pra você





Ney Ferraz Paiva
Magritte, O princípio do prazer

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


Calma e Silêncio


Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o voo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

Georg Trakl
tradução: Cláudia Cavalcante
imagem: Manuel Álvarez Bravo, sede pública

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Janela do caos


1
Tudo se passa
Em Egitos de corredores aéreos
Em galerias sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
- Ou teu coração?
Azul de guerra.

2
Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.
Ah! Quem telefonaria o consolo
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.

3
Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras
Mas na tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.

4
O céu cai das pombas.
Ecos de uma banda de música
Voam da casa dos expostos.
Não serás antepassado
Porque não tiveste filhos:
Sempre serás futuro para os poetas.
Ao longe o mar reduzido
Balindo inocente.

5
Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.

6
A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
- Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.
Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.

7
Cai das sombras das pirâmides
Este desejo de obscuridade.
Enigma, inocência bárbara,
Pássaros galopando elementos
Do fundo céu
Irrompem nuvens equestres.
Onde estão os braços comunicantes
E os pára-quedistas da justiça?
Vultos encouraçados presidem
À sabotagem das harpas.

8
Que esperam todos?
O vento dos crimes noturnos
Destrói augustas colheitas,
Águas ásperas bravias
Fertilizam os cemitérios.
As mães despejam do ventre
Os fantasmas de outra guerra.
Nenhum sinal de aliança
Sobre a mesa aniquilada.
Ondas de púrpura,
Levantai-vos do homem.

9
Penacho da alma,
Antiga tradição futura:
Se a alma não tem penacho
Resiste ao Destruidor?

10
A velocidade se opõe
À nudez essencial.
Para merecer o rompimento dos selos
É preciso trabalhar a coroa de espinhos.
Senão te abandonam por aí,
Sozinho, com os cadáveres de teus livros.

11
Pêndulo que marcas o compasso
Do desengano e solidão,
Cede o lugar aos tubos do órgão soberano
Que ultrapassa o tempo:
Pulsação da humanidade
Que desde a origem até o fim
Procura entre tédios e lágrimas.
Pela carne miserável,
Entre colares de sangue,
Entre incertezas e abismos,
Entre fadiga e prazer,
A bem-aventurança.
Além dos mares, além dos ares,
Desde as origens até o fim,
Além das lutas, embaladores,
Coros serenos de vozes mistas,
De funda esperança e branca harmonia
Subindo vão.



Murilo Mendes, Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar, 1994.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


A MÁQUINA DE MATAR O TEMPO



Aqui nós investimos contra a alma imortal dos gabinetes. Procuramos amigos que não sejam sérios: os macumbeiros, os loucos confidentes, imperadores desterrados, freiras surdas, cafajestes com hemorroidas e todos que detestam os sonhos incolores da poesia das Arcadas. Nós sabemos muito bem que a ternura de lacinhos é um luxo protozoário. Sede violentos como uma gastrite. Abaixo as borboletas  douradas. Olhai o cintilante conteúdo das latrinas.


Roberto Piva
imagem: Sylvia Plath

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012








dentro deste pesado pássaro
tudo arde 

sobrevoo Casablanca, Marrakesh, Agadir 

não vim para ficar intacta
busco a nódoa, as fezes, o erro

o eterno e áspero abraço
contra a muralha mourisca

inclino-me melhor para enxergar este destino:
uma mente andrógina escrevendo versos
desamparada pelo esplendor

permanece forte tempestade no horizonte

mas não desisto:
no meu jardim, Rosa e Pessoa
reinam




Marize Castro, Habitar teu nome, 2011
imagem: Gui Mohallem, espelho manchado

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012



AMAR NO LIMIAR DE COISAS GRANDES A VIR


Em "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë, Heathcliff condena o espírito de Catherine, a mulher amada, a vagar pela terra e a não encontrar descanso, porque não suportaria continuar a viver sem ela por perto... Os Diários de Sylvia Plath apresentam intensas variações e correlações de um amor que condena o outro a se estratificar, a não poder escoar com o passar do tempo, em datas e velocidades muito diferentes, assim como a vida é, quer ser e não admite impunemente qualquer retardamento, sem rupturas e precipitações trágicas. Incluo abaixo excertos desses Diários de Sylvia, uma espécie de organismo duplo da vida da poeta, que se desfaz, reduz, bem ao contrário do esplendor pretendido...


Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça... invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação mas não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O movimento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. E eu não quero morrer.

(página 22, escrito em 1950)



Na superfície, ela é agradável, solícita: dedicou a vida inteira aos filhos e agora eles podem se dedicar a ela, porque precisam fazer com que viva preocupada preocupada preocupada? Teve uma vida difícil: casou-se com um homem, empurrada pelo desespero de estar chegando aos trinta, ele era mais velho que sua mãe e tinha outra esposa no Oeste. Casou-se em Reno. Ele ficou doente no momento em que o pastor disse que podiam se beijar. E mais doente a cada dia. Ela concluiu que ele era um bruto e que não poderia, não queria amá-lo. Ficou no chuveiro, esforçando-se para gostar do calor da água que molhava seu corpo, pois odiava o miserável. Ele se recusava a consultar um médico, não acreditava em Deus e no recôndito do lar idolatrava Hitler. Ela sofria. Casou-se com um sujeito a quem não amava. Os Filhos foram sua salvação. Ela os colocou em Primeiro Lugar. Ela ficou lá, amarrada nua nos trilhos e o trem da Vida avançando, fazendo a curva, apitando. (...) 
Ela voltou para casa chorando feito um anjo certa noite e me acordou e contou que Papai tinha ido embora, estava morto, como diziam, e nunca o veríamos de novo, mas nós três ficaríamos juntas para sempre e teríamos uma vida boa, de todo modo, só de birra. Ele não deixou nem dinheiro para o enterro, perdeu tudo em ações, do mesmo jeito que o pai dela, foi horrível. Homens homens homens. 
A vida era um inferno. Ela tinha que trabalhar. Ser empregada e mãe, homem e mulher, num único corpo ulcerado. Ela furtava. Catava coisas no lixo. Vivia sempre com o mesmo casaco puído. Mas os filhos tinham uniformes escolares novos e sapatos adequados. Aulas de piano, aulas de viola, aulas de trompa, de pistões. Eram Escoteiros. Frequentaram acampamentos no verão e aprenderam a velejar. Um deles foi para a escola particular, ganhou uma bolsa e tirava notas altas. Com toda a honestidade e do fundo de seu coração infeliz ela arranjou forças para dar àquelas crianças inocentes as alegrias que jamais desfrutara. Vivera num mundo medonho. Mas os filhos foram para a faculdade, a melhor do país, somando bolsas de estudo, seu próprio trabalho e o dinheiro dela, e não precisariam estudar comércio e coisas menores. Um dia eles se casariam por amor amor amor e teriam dinheiro de sobra e tudo ficaria bem a não mais poder. Eles nem precisariam sustentá-la na velhice.
(...)
Quanto a mim, jamais conheci o amor de um pai, o amor de um homem sólido, com laços de sangue, 
após a idade dos oito anos. Minha mãe matou o único homem que me amaria incondicionalmente pela 
vida fora: apareceu certa manhã com lágrimas generosas nos olhos e contou que ele se fora para sempre. Eu a odeio por isso. 
Eu a odeio porque ela não o amava. Ele era um ogro. Mas sinto sua falta. Ele era velho mas ela quis se casar com um velho e quiz que ele fosse meu pai. Era culpa dela. Os olhos dela que se danem.


Eu odeio os homens porque eles não ficam sempre a meu lado e não me amam como um pai: eu poderia fazer furos neles e mostrar que não havia recheio de pai. Eu os instigava se declarar e depois dizia que não tinham a menor chance comigo. Odiava os homens porque eles não precisavam sofrer como as mulheres sofriam. Eles podiam morrer ou ir para a Espanha. Eles podiam se divertir enquanto uma mulher sofria as dores do parto. Eles podiam jogar enquanto a mulher suava para economizar a manteiga do pão. Os homens, nojentos e vagabundos. Eles pegavam o máximo que podiam e depois tinham ataques de fúria, ou morriam ou iam para a Espanha que nem o marido da fulana de lábios carnudos.

Arranje uma imitação de homem, pequeno, miúdo, confiável, amoroso, uma gracinha que lhe dê filhos e pão e um teto seguro e um gramado verde e dinheiro dinheiro dinheiro todos os meses. Compromisso. Uma moça esperta não pode ter tudo o que deseja. Arranje o melhor que puder. Pegue qualquer um que valha pena você possa controlar e dominar com doçura. Não deixe que fique nervoso ou morra ou vá para Paris com a secretária gostosa. Faça tudo para ele ser bom bom bom.

(...) 
(páginas 497 a 500, 12/12/1958)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sylvia Plath Reads Lady Lazarus



LADY LAZARUS


Tentei outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito —

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha feito abajur nazista,
Meu pé direito

Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.

Dispa o pano
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo? —

O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
O hálito amargo
Desaparece num dia.

Em muito breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.

E eu uma mulher sempre sorrindo.
Tenho apenas trinta anos.
E como o gato, nove vidas para morrer.

Esta é a Número Três.
Que besteira
Aniquilar-se a cada década.

Um milhão de filamentos.
A multidão, comendo amendoim,
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e pés —
O grande striptease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

No entanto sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos na primeira vez.
Foi acidente.

Na segunda quis
Ir até o fim e nunca mais voltar.
Oscilei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Desse jeito faço parecer infernal.
Desse jeito faço parecer real.
Vão dizer que tenho vocação.

E muito fácil fazer isso numa cela.
É muito fácil fazer isso e ficar nela.
É o teatral

Regresso em plena luz do sol
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
Aflito e brutal:

"Milagre!"
Que me deixa mal.
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração —
Ele bate, afinal.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou cada toque
Ou mancha de sangue

Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas.
E aí, Herr Doktor.
E aí, Herr Inimigo.

Sou sua obra-prima,
Sou seu tesouro,
O bebê de ouro puro

Que se funde num grito.
Me viro e carbonizo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação.

Cinza, cinza —
Você fuça e atiça.
Carne, osso, não há mais nada ali —

Barra de sabão,
Anel de casamento,
Obturação de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado.
Cuidado.

Saída das cinzas
Me levanto com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar.


Sylvia Plath, Lady Lazarus


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012



MORTE-RESSURREIÇÃO DE LADY LAZARUS


 

o frio o gás os barbitúricos falharam
a arte de morrer é interminável
esse o mar onde escreves de novo
transpões a terra entre Boston & 
Londres
águas antigas que envenenam
como um amplo pomar ou a lua
o mal chega ao fim já recomeça
um aborto          uma apendicite
torrente cada vez mais profunda
nada que te fizesse adoecer mais do que todos
claro a dor o dom era teu a maior parte
esse negócio de viver a irracionalidade
chega-se lá estanca & se está de volta
uma mulher que morre – abelha rígida 

outrora rápida sarcástica imprevisível


ney ferraz paiva
imagem: sylvia plath

Frank O´Hara reads "Having a coke with you"



Tomar coca-cola com você


é ainda mais divertido que ir a São Francisco, La Jolla, Tijuana, Tecate, Ensenada
ou ter o estômago revirado de enjoo na Madison Avenue em Nova Iorque
em parte porque nesta camisa laranja você me parece um São Francisco melhor mais feliz
em parte por causa do meu amor por você, em parte por causa do seu amor por vodca
em parte por causa das margaridas laranja fluorescente cercando os ipês
em parte por causa do mistério que nossos sorrisos vestem diante de gente e estatuaria
é difícil de acreditar quando estou com você que pode haver algo tão imóvel
tão solene tão desagradavelmente definitivo quanto estatuaria quando bem em frente
no ar quente das quatro da tarde em São Paulo nós vagamos em círculos um entre o outro
sem parar como uma árvore respirando por suas oftálmicas
e a exposição de retratos parece não ter qualquer rosto, só tinta
você de repente pergunta-se por que diabos alguém deu-se ao trabalho de fazê-los
                                                                        eu olho
você e preferiria olhar você a todos os retratos do planeta com exceção
talvez do Autorretrato com corrente de ouro de vez em quando que está no MASP
a que graças aos céus você ainda não foi então podemos ir juntos pela primeira vez
e o fato de que você se move tão lindo resolve mais ou menos o Futurismo
assim como em casa eu nunca penso no Nu Descendo uma Escada ou
num ensaio um único desenho de Da Vinci ou Michelangelo que antes me boquiabria
e de que adianta aos Impressionistas toda a sua pesquisa
quando eles nunca conseguiam a pessoa certa para encostar-se à árvore ao pôr-do-sol
ou a propósito Marino Marini se ele não escolheu o cavaleiro com o mesmo cuidado
                                                                   que o cavalo
é como se eles tivessem sido fraudados em alguma experiência maravilhosa
que eu não pretendo desperdiçar o motivo pelo qual estou aqui falando tudo isso para você

Frank O´Hara
Contextualização: Ricardo Domeneck