Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LÊDO IVO CONTINUA VIVO

APENAS TOMOU O CAMINHO DO 

HOSPÍCIO



ASILO SANTA LEOPOLDINA


Todos os dias volto a Maceió.

Chego nos navios desaparecidos, nos trens sedentos, nos aviões 

cegos

Que só aterrizam ao anoitecer.

Nos coretos das praças brancas passeiam caranguejos.

Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcar

Fluindo docemente dos sacos armazenados nos trapiches

e clareiam o sangue velho dos assassinados.

Assim que desembarco tomo o caminho do hospício.

Na cidade em que meus ancestrais repousam em cemitérios

marinhos

só os loucos de minha infância continuam vivos e à minha 

espera.

Todos me reconhecem e me saúdam com grunhidos

e gestos obscenos ou espalhafatosos.

Perto, no quartel, a corneta que chia

Separa o pôr-do-sol da noite estrelada.

Os loucos langorosos dançam e cantam entre as grades.

Aleluia! Aleluia! Além da piedade

a ordem do mundo fulge como uma espada.

E o vento do mar oceano enche os meus olhos de lágrimas.


Lêdo Ivo


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012




Em conversa com Thomas Bernhard


Hofmann: Vamos jogar um pequeno jogo. O senhor não é agora
o Thomas Bernhard, mas um vizinho, um agricultor.

Bernhard: E eu tenho que dizer então qualquer coisa sobre o

Thomas Bernhard?

Hofmann: Sim, sim. Há quanto tempo mora já o Thomas

Bernhard em Ohlsdorf?

Bernhard: A mim não me parece que haja tanto tempo, mas ele
afirma que há 25 anos. Mas ele continua a ser novo.

Hofmann: Já falou alguma vez com ele? Têm contato?

Bernhard: Uma vez por ano. Ele muito raramente sai de casa, e
então vai à igreja.

Hofmann: Aonde é que ele vai?

Bernhard: À igreja.

Hofmann: Quando?

Bernhard: De noite, quando mais ninguém vai. Publicamente
não se atreve. Ele afirma que não tem nenhuma relação com a
igreja e assim isso é provavelmente desagradável para ele.

Hofmann: E como é que ele é, quando o encontra?

Bernhard: Tímido, muito tímido. Misantropo. Preguiçoso e
misantropo.

Hofmann: Com certeza vêm aqui jornalistas. Vêm então ter

consigo?

Bernhard: Eles vêm então ter comigo e não com ele. E às vezes
conto alguma coisa sobre ele. Como ele está e como vai.

Hofmann: O senhor é agricultor de profissão.

Bernhard: Sou, fui sempre agricultor. Os meus avós eram
agricultores, e todos eram agricultores. Os meus filhos também

são...

Hofmann: O que é que pensa de alguém que...

Bernhard: Que não é agricultor?

Hofmann: Que escreve...

Bernhard: isso é uma idiotice, porque não tem utilidade para
ninguém e não serve de nada. Nada.

Hofmann: Leu alguma coisa dele?

Bernhard: Sim, uma vez. Mas aborrece-me.

Hofmann: O quê?

Bernhard: Já não sei. Ele só diz disparates. É só destrutivo e
perverso e tudo isso.



Em Conversa com Thomas Bernhard, de Kurt Hofmann, traduzido por José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Agosto, 2006.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Luca Mantovanelli


Pássaro Azul



há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro para ele,

e digo, fica aí dentro,


não vou deixar ninguém ver-te.

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu despejo whisky para cima dele

e inalo fumo de cigarros

e as putas e os empregados do bar

e os funcionários da mercearia

nunca saberão que ele se encontra

lá dentro.


há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro para ele,

e digo, fica escondido,

queres arruinar-me?

queres foder-me o

meu trabalho?

queres arruinar

as minhas vendas de livros

na Europa?

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado esperto,

só o deixo sair à noite

por vezes

quando todos estão a dormir.

digo-lhe, eu sei que estás aí,

por isso

não estejas triste.

depois,

coloco-o de volta,

mas ele canta um pouco lá dentro,

não o deixei morre de todo

e dormimos juntos

assim

com o nosso

pacto secreto

e é bom o suficiente

para fazer um homem chorar,

mas eu não choro,

e tu?


Charles Bukowski

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012



A armadilha do diário 

por Maurice Blanchot


O interesse do diário é sua insignificância. Essa é sua inclinação, 

sua lei. Escrever cada dia, sob a garantia desse dia e para lembrá-lo 

a si mesmo, é uma maneira cômoda de escapar ao silêncio, como ao 

que há de extremo na fala. Cada dia nos diz alguma coisa. Cada dia 

anotado é um dia preservado. Dupla e vantajosa operação. Assim, 

vivemos duas vezes. Assim, protegemo-nos do esquecimento e do 

desespero de não ter nada a dizer. "Prendamos com alfinetes nossos 

tesouros", diz horrorosamente Barrès; e Charles du Bos, com a 

simplicidade que lhe é própria: "O diário, na origem, representou 

para mim o supremo recurso para escapar ao desespero total diante 

do ato de escrever"; e também: "O curioso, no meu caso, é quão 

pouco tenho o sentimento de viver quando meu diário não recolhe 

seu depósito". Mas que um escritor tão puro quanto Virginia Woolf, 

que uma artista tão empenhada em criar uma obra que retivesse 

somente a transparência, a auréola luminosa e os leves contornos 

das coisas, tenha se sentido de certa maneira obrigada a voltar para 

junto de si, num diário tagarela em que o Eu se derrama e se 

consola, isso é significativo e perturbador. O diário aparece aqui 

como uma proteção contra a loucura, contra o perigo da escrita. Lá, 

em As Ondas, ruge o risco de uma obra em que é preciso 

desaparecer. Lá, no espaço da obra, tudo se perde e talvez a própria 

obra se perca. O diário é a âncora que raspa o fundo do cotidiano e 

se agarra às asperezas da vaidade. Da mesma forma, Van Gogh tem 

suas cartas e um irmão para quem escrevê-las.

Parece haver, no diário, a feliz compensação, uma pela outra, de 

uma dupla nulidade. Aquele que nada faz de sua vida escreve que 

não faz nada, e eis, apesar de tudo, algo de feito. Aquele que se 

deixa desviar da escrita pelas futilidades do dia, agarra-se a esses 

nadas para contá-los, denunciá-los ou gozá-los, e eis um dia 

preenchido. É "a meditação do zero sobre ele mesmo", de que fala, 

valentemente, Amiel.

A ilusão de escrever, e por vezes de viver, que ele dá, o pequeno

recurso contra a solidão que ele garante [...], a ambição de eternizar 

os belos momentos e mesmo de fazer da vida toda um bloco sólido 

que se pode abraçar com firmeza, enfim a esperança de, unindo a 

insignificância da vida com a inexistência da obra, elevar a vida 

nula à bela surpresa da arte, e a arte informe à verdade única da 

vida, o entrelaçamento de todos esses motivos faz do diário uma 

empresa de salvação: escreve-se para salvar a escrita, para salvar 

sua vida pela escrita, para salvar seu pequeno eu (as desforras que 

se tiram contra os outros, as maldades que se destilam) ou para 

salvar seu grande eu, dando-lhe um pouco de ar, e então se escreve 

para não se perder na pobreza dos dias ou, como Virginia Woolf, 

como Delacroix, para não se perder naquela prova que é a arte, que 

é a exigência sem limite da arte. 

O que há de singular nessa forma híbrida, aparentemente tão fácil, 

tão complacente e, por vezes, tão irritante pela agradável 

ruminação de si mesmo que mantém (como se houvesse o menor 

interesse em pensar em si, em voltar-se para si mesmo), é que ela é 

uma armadilha. Escrevemos para salvar os dias, mas confiamos sua 

salvação à escrita, que altera o dia. Escrevemos para nos salvar da 

esterilidade, mas nos tornamos Amiel que, voltando-se para as 

catorze mil páginas em que sua vida se dissolveu, reconhece nelas o 

que o arruinou "artística e cientificamente", por "uma preguiça 

ocupada e um fantasma de atividade intelectual". Escrevemos para 

nos lembrar de nós, mas, diz Julien Green: "Eu imaginava que 

aquilo que anotava reanimaria, em mim, a lembrança do resto... mas 

hoje nada mais resta senão algumas frases apressadas e 

insuficientes, que me dão, de minha vida passada, apenas um 

reflexo ilusório". Finalmente, portanto, não se viveu nem se 

escreveu, duplo malogro a partir do qual o diário reencontra sua 

tensão e sua gravidade.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Plegária

Verde, âmbar as
pedras,
e as violetas rosadas –
eternas e o humo que
cobria o chão negro
como a noite, e quisera
falar-lhe em seu idioma
antigo
e recordar os lobos
correndo ao redor da
casa e a hera selvagem
cobrindo os vestidos e
os animais, pequenos,
nos bordados coloridos e
ramitos a entreabrir-se
brancos e escuros, cristal
de la luna ao reflexo
como a aparição das
lebres e das ovelhas
correndo os campos sob
as nuvens e a subterra
profunda do horto na
pele do ar em minutos
precisos, envolvendo o
tempo quando vi morrer
o sol, e o vento girando,
soprando mirações da
cor da água, nas rosas e
nos insetos. Quisera falar
seu idioma antigo e
guardar-lhe nas luzitas
do espelho como os
cravos também tão
antigos sobre a toalha
branca, e uma lua de
seda derrama um rosário
de ouro mais os rumores
de um sonho, quisera.


Jussara Salazar

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012





POR VEZES


Quando conheces alguém
mais inteligente ou mais estúpido do que tu –
não faças caso disso.
As formigas e os deuses,
acredita, sentem o mesmo.
Que exista mais gente na China,
digamos, que em San Marino,
não é uma desgraça.
A maioria das pessoas, sem dúvida, é
mais negra ou mais branca que tu.
Por vezes és um gigante,
qual Gulliver, ou um anão.
Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir
uma beleza ainda mais radiante,
alguém ainda pior.
És medíocre,
felizmente. Aceita-o!
Sete graus centígrados a mais
ou a menos no termômetro -
e estarias além da salvação.


HANS MAGNUS ENZENBERGER
Imagem: Duane Michals

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ROBERT MAPPLETHORPE

O POETA MÁRIO FAUSTINO DESCE AOS INFERNOS E SOBE AO EMPYREAM


II. AS CONFRONTAÇÕES

A centelha-da-morte, negra
em vergão cinzento,
quebra-se, desoladamente, fria-
como-osso no vácuo de seu rastro.

Corredores andinos retorcem-se e

voltam-se
rumo a um minotauro que não é
poesia,
desconhecido a não ser por suas frias
recompensas
de contraforte, gendarme, pico e
desfiladeiro, 
de parede abrupta enfurecida contra
queda abrupta.
Ao nascer e pôr do sol há goles
blazonados  sobre a disjecta membra
de convulsão velha como pedra,
batida
e contra-batida; no entretanto,
o minotauro que não é poesia
estende-se no cinza; nuvem ou vapor
ilhando o gume,
espessa-se em rocha - fria, silente,
ameaçadora!
Com maciço intento, a geleira
avança.
As muralhas, inquisidoras dobras-
cinza
reúnem-se para pronunciar a
sentença no espaço.
O primeiro a morrer é o horizonte.
É tão escuro na barriga do 
minotauro
como aqui ao devolver do dia?  Logo
após,
infinitude, e então eternidade,
contrai-se,
morre. As lápides, emprestando
tempo para pagar tributo,
peroram sem inscrições ou graça.
O último a morrer é o próprio tempo.

A centelha-da-morte, negra em

vergão cinzento, quebra-se,
desoladamente, fria-como-osso no
vácuo de seu rastro.

Nascido, Mário, sob a sombra

lânguida da mangueira
sonha com seu fruto, as manchas
rosa e verde e amarelo
recorrendo em sua face, os ossos
do seu corpo em concerto com as
harmonias da rede, você estava
como agora eu o vejo, agora.
Meia-tarde. Silêncio, saturado de
amarelo,
aguarda a hora da jubilação.
Telhados de telha rubra
expandem o prazer do seu
círculo, e além do rio, a
jângal e mar
arredondam sua perfeita bolha
sempre sobre as praias
de explosão em iridescência.
Globos de cristal de resina
exsudam das mangas...
o pairar de beija-flores
remodelando as corolas dos
hibiscos... De pijama listrado
você transpira através da medida
labiríntica de um poema para as
paráfrases do touro.
Encurvado (para capturar a
miríade de perfumes)
e contas oleosas (brilhantes em
sua testa)
prejudicam seu sentido de
brevidade
que se vira e se retorce no dia
mais sanguinário do mês de Judas
até, no cerne pousado,
todo o mundo como linguagem
torna-se tesouro
transparente.

Mas a centelha-da-morte, negra

em vergão cinzento, quebra-se,
desoladamente, fria-como-osso no
vácuo de seu rastro.


ROBERT STOCK

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

3 IMAGENS por ERNESTO TIMOR

Ernesto Timor é um fotógrafo do estilo; ele quer o verdadeiro desvio, a reivindicação negativa da interpretação, ou melhor, sua invalidação. Radicaliza esteticamente como os grandes poetas. 


Não seria talvez que os grandes poetas contemporâneos sejam os fotógrafos? Ou será que talvez os grandes poetas sejam fotógrafos? E que a fotografia seja a invenção de uma forma do escrever.


A literatura tornou-se um consumo passivo de significados. A fotografia enfrenta a passividade com os recursos ativos do cinema. Numa única fotografia o material de linguagem de múltiplas cenas.


A fotografia de Ernesto Timor encena o que não se sabe, o que vai desdobrar-se, a pontuação de uma escrita esquiva mas que já anuncia e que pode ir mais adiante. Fotografia que espera, cerca, antevê a Poesia. 

ney ferraz paiva

sábado, 24 de novembro de 2012

ERNESTO TIMOR

O POETA MÁRIO FAUSTINO DESCE AOS INFERNOS E SOBE AO EMPYRIAM

I. DIAS & ANOS


Lutando com os ventos ele veio,
ansioso por uma batalha,
veio apenas para voar contra uma
parede Andina.

Testamento sem fé, sem verticais

de luz
ao condor enlouquecido, embora
arrulhasse como um pombo
em velocidades que nem mesmo
Mário poderia amar.
Não seja satélite para a morte forjado
numa arrogância de metal.
Imenso e escuro o pássaro foi bicando
através dos Andes
despachando sua carga de discórdia,
tremor e ternura,
seu gênio e seu gênero que nenhum
vinco devorará.
Frágil demais, louco demais em sua
fragilidade, ele veio
agarrando o Homem e sua hora.

Lutando com os ventos ele veio,

ansioso por uma batalha,
veio apenas para voar contra uma
parede Andina.

Mil novecentos e sessenta e dois.

Hoje é mil novecentos e sessenta e
cinco.
Quebramos, hoje, o pescoço do 
espaço.
E apenas hoje, neste mil novecentos e
sessenta e cinco,
fui derrubado pela palavra do
desastre que despedaçou uma
palavra que nenhum dicionário
poderia definir,
o verbo Mário destroçou-se onde
os sóis do Brasil declinam.

Lutando com os ventos ele veio,

ansioso por uma batalha,
veio apenas para voar contra uma
parede Andina.

Três anos, anos através dos quais

as coisas que eu disse, fiz, vivi, se
não uma mentira, foram de alguma 
forma incompletas,
fragmentadas, irreais: por trás da
pilha de novelas não lidas
um punhado de passas queixosas
no seu bolor;
a vida abundante eu pensei
cheirasse a pão branco quente
do forno
é por sua morte concedida
escarlatina em um quarto escuro;
minha jornada todas começaram
mas nunca terminaram.
Neste mil novecentos e sessenta e 
cinco eu localizo
uma melancolia errante, um
desassossego vago, um conto não
contado que conta meus
panoramas Andinos, desertos,
gelados.

Lutando com os ventos ele veio,

ansioso por uma batalha,
veio apenas para voar contra uma
parede Andina.

Mil novecentos e sessenta e dois -

novecentos e sessenta e cinco -
no intervalo quantos foram
deixados para apodrecer longe de
mim! A maioria do limo não é
rápida bastante, lentamente ele
se trança, se expande:
um por um os grandes morrem, os
velhacos, permanecem,
As bursas do tempo doem com
todos os esquifes que precisa
carregar.

Em 63, em Dallas, uma morte que

na balança
de verdade e essência
pesa bem menos, Mário, do que a
sua, a sua repentina,
compeliu-me ao muro da
preocupação. Mas aquela maré
vaza agora, Mário, porque eu sei
que nós não compartilhamos isso.
Deixe os torpes e as gaivotas
continuarem a devorá-la.


ROBERT STOCK
Mário Faustino cavou uma mina tão profunda e o minério que ele 
espalhou sobre seu ombro cegou Apolo de dia e um piloto, à noite. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

PAOLO ROVERSI

Carpe diem

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

MÁRIO FAUSTINO. "Esparsos e inéditos". In: Poesia de Mário Faustino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


JACEK JEDRZEJCZAK


Já me matei...


já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma


Paulo Leminski

sábado, 17 de novembro de 2012

Alessandro Bavani, Sodoma e Gomorra

ANTI-ÉCLOGA


A verdade é que também as urtigas 
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras 
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.
Não me sinto nada bem com a doçura,
com a paz dos ermitérios, de onde Deus
se retirou há quinze anos. Esta resignação
das árvores, dos faunos, das silvanas,
da restante bicharada típica dos lugares
onde sofrer é natural como estar só,
a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos
que me apertem. As sandálias do pescador,
as botas do alpinista, não me levam
a lado nenhum. Detesto confessá-lo,
mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

Não consigo viver sem o saco de areia
onde exercito o excessivo golpe da exasperação.
Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,
torna-se pastosa, sonolenta, felizita
como um rio de meandros preguiçosos,
lamacentos, imprestáveis - de que me serve
fingir o sossego a que não chego, brincar 
às Arcádias em que não acredito?
Está decidido, prefiro sofrer.
Amanhã de manhã regresso ao abismo.

José Miguel Silva, "Ulisses Já Não Mora Aqui", 2002