o verão envelhece, mãe impiedosa (Sylvia Plath)

sábado, 11 de julho de 2009


Tocantins: rio morto pela metade

Pedro Tierra é poeta da natureza, primitivo no seu sentido radical: fala das coisas essenciais que nos mantém vivos. Um rio é essencial para a vida? Não se precisaria fazer esta pergunta, mas o poeta faz, porque a resposta em algum momento se tornou perversa. Essencial, por certo, mas pela energia elétrica que se pode tirar do rio. Pela barragem que se pode construir nele. Mas e se falássemos assim do nosso próprio corpo? Quantas veias se poderia obstruir, sem que nada saísse de errado? Quantos coágulos se poderia tolerar, sem que o coração parasse? É disso que Pedro Tierra se põe a falar. De uma vida que precisa ser preservada ante todas as ameaças.

Um rio quando barragem
tem a espinha quebrada
vira um rio paralítico
feito um animal vivo
que morreu só a metade:
a outra metade viva pulsando
solta, como veia aberta a foice...
Um rio quando barragem anoitece
as manhãs que cultivava...



Não há em nenhum lugar do mundo uma barragem que tenha resultado em melhores condições de vida, sobretudo para as populações locais, sempre passivas e detentoras dos passivos sociais e ambientais da obra. Ganham os governos, os empreendedores com essas ilhas da fantasia cercadas por lagos de artificialidades brutais. Que aceleram o ritmo de devastação e de poluição. Inclusive os processos de negociação (licenciamentos, consultas, indenizações) não passam de ardis, enganação, componentes com os quais se vai tecendo a rede de poderes perversos em que as populações serão envolvidas e arrancadas de suas casas e de suas vidas. Desterrados, sem que isso seja ainda o pior.



O rio teima em manter-se rio, corrente:
uma veia de esmeralda líquida e retesa
varando o ventre do lago,
feito alma submersa
e luminosa a lhe dar sentido.

Vencido, o rio se abranda em barros e silêncios.
Grávido, cálido, fermentado.
Engendrando o desconhecido
Belo ou monstruoso que saltará sobre nós.



Precisamos considerar se de fato uma Consulta Pública (sempre esvaziadas de "público") sobre os Recursos Hídricos (notem, a palavra usada é recurso e não bem - o bem público diz respeito a todos, já o recurso...) poderá nos liberar das imposições, pressões, aliciamentos que se dão por trás dos tapumes dos canteiros de obras. Que tudo não seja apenas uma superficial substituição de palavras. E por isso que deve ser evocado aqui Pierre Bourdieu, nas suas “Razões Práticas”, quando trata dos atos desinteressados. Diz-nos Bourdieu: “os agentes sociais não agem de maneira disparatada, que eles não são loucos, que eles não fazem coisas sem sentido. O que não significa supor que eles sejam racionais, que têm razão em agir como agem ou mesmo, de maneira mais simples, que eles tenham razão em agir, que suas ações sejam dirigidas, guiadas ou orientadas por essas razões. Eles podem ter condutas razoáveis sem serem racionais; podem ter condutas às quais podemos dar razão, como dizem os clássicos, a partir da hipótese de racionalidade, sem que essas condutas tenham tido a razão como princípio. Eles podem se conduzir de tal maneira que, em uma avaliação racional das possibilidades de sucesso, pareça que eles tinham razão em fazer o que fizeram, sem que tenhamos razão em dizer que o cálculo racional das probabilidades tenha sido o princípio das escolhas que fizeram.”


Ney Ferraz Paiva
Imagem: Márcio Di Pietro

Um comentário:

  1. A bacia da qual o rio faz parte, sempre me remete à parte do corpo que se desagrega para dar passagem ao filho no momento do parto, como algo rompido, estourado e que precisa fluir. Também aquela interrupção (a barragem) parece ter um prazo para se romper, como na canção: “iremos atravessá-las, rompe-las ao meio como uma quilha corta as ondas”. A exemplo do que aconteceu em alguns rios do Brasil no último período chuvoso.

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