Tenho fumado uns cigarros/um pouco de tabaco faz eu me sentir menos esquisito

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A AVENTURA


Eu te encontrei

Como quem atravessa um corredor longo e de janelas fechadas,

Como quem vem para a manhã trazendo o sono enfermo das madrugadas.

Eu te encontrei

Como quem saiu da noite e foi descalço até o mar para brincar nas pedras.

Como quem sob a chuva saiu para apanhar as açucenas,

E dormiu nas grandes folhas úmidas das árvores,

Ou como quem, perdido nos caminhos, de súbito encontrou o mar.





PAULO PLÍNIO ABREU, Poesia, UFPA, 1978
Imagem: Francesca Woodman, espaço 2

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A PALAVRA, OCUPAÇÃO DE RIVAIS [1]





Por que, então Sylvia se matou?
Acredito que seu suicídio tenha sido, em parte, “um pedido de socorro” que saiu pela culatra, com conseqüências fatais. Mas foi também uma última tentativa de exorcizar a morte que tanto evocara em seus poemas.
Já sugeri que talvez existissem duas razões para Sylvia ter começado a escrever obsessivamente sobre a morte.
Em primeiro lugar, ao separar-se do marido, querendo ou não, passara a reviver profunda dor e sensação de perda experimentada em criança quando o pai, com sua morte, parecera abandoná-la. Em segundo lugar, acredito que o acidente de carro do verão anterior a libertara; pagara suas dívidas, qualificando-se como uma sobrevivente, e agora podia escrever sobre o assunto.
No entanto, para o próprio artista a arte não é necessariamente terapêutica; ele não se livra automaticamente de suas fantasias ao expressá-las. Ao contrário, por uma espécie de lógica perversa da criação, o ato da expressão formal pode simplesmente tornar o material trazido à tona mais prontamente disponível para o artista.
O ato de lidar com essas fantasias em seu trabalho pode muito bem fazer com que ele de repente se perceba vivendo-as.
Para o artista, em suma, a natureza muitas vezes imita a arte. Ou, para mudar de clichê, quando um artista aponta um espelho para a natureza, ele descobre quem, e o que, ele é; mas essa descoberta pode modificá-lo irremediavelmente, a ponto de ele se tornar essa imagem.
Acho que Sylvia, de uma forma ou de outra, sentiu isso.
Numa nota introdutória que escreveu para “Daddy”, para o programa da BBC, ela diz, a respeito da narradora do poema: “Ela tem de encenar mais uma vez a terrível pequena alegoria antes de ver-se livre dela”.
A alegoria em questão era, da forma como Sylvia a entendia, a luta travada dentro dela entre um imaginário pai nazista e uma mãe judia. Mas talvez fosse uma fantasia de carregar dentro dela o pai morto, como uma mulher possuída por um demônio (no poema, ela chega mesmo a chamá-la de vampiro). Para que ela possa ver-se livre dele, o pai tem de ser libertado como uma espécie de gênio da lâmpada. E era exatamente isso que os poemas faziam: corporificavam a morte que existia dentro dela. Mas também o faziam de forma extraordinariamente vívida e criativa. Quanto mais ela escrevia sobre a morte, mais forte e fértil seu mundo criativo se tornava. E isso lhe dava todos os motivos para querer viver.
Acho que, no fundo, o que ela queria era encerrar o tema de uma vez por todas, mas a única maneira que encontrou para fazê-lo foi “encenando mais uma vez a terrível pequena alegoria”. Ela sempre tivera um certo espírito de jogador, estava habituada a correr riscos.
A força de sua poesia devia-se em parte à maneira corajosa como teimava em seguir o fio de sua inspiração até a toca do minotauro. E essa coragem psíquica tinha seu paralelo em sua petulância física e imprudência. Riscos não a atormentavam; ao contrário, ela os achava estimulantes.
Freud escreveu: “A vida perde interesse quando a ficha mais alta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser posta em risco”. No final Sylvia decidiu correr esse risco. Jogou pela última vez, tendo calculado que a sorte estaria a seu favor, mas talvez em sua depressão, sem importar-se muito com o fato de vir a ganhar ou perder.
Seus cálculos estavam errados, ela perdeu.
Foi um erro, portanto, e a partir dele todo um mito se criou.
Um mito que, imagino, não seria muito do agrado de Sylvia, já que é um mito do poeta como vítima sacrificial, ofertando-se em benefício de sua arte, tendo sido arrastado pelas Musas até aquele derradeiro altar, passando por todos os tipos de aflição.
De acordo com essa lógica, seu suicídio se transforma na razão de ser de toda a história, o ato que valida seus poemas e lhes confere interesse, e que atestam sua própria seriedade.
Assim as pessoas são atraídas para a sua obra num espírito muito semelhante àquele que levou a Time a fazer uma longa matéria sobre ela: não pela poesia, mas por um certo “interesse humano” extraliterário, também conhecido como bisbilhotice. No entanto não só o suicídio não acrescenta absolutamente nada à poesia em si, como o mito de Sylvia como vítima passiva é uma total distorção da mulher que ela foi. Ele deixa de fora por completo sua vivacidade, seu apetite intelectual e humor impiedoso, seus extraordinários recursos criativos, intensidades de sentimentos, seu controle.
Acima de tudo, deixa de fora a coragem com que ela conseguiu transformar desgraça em arte. O lamentável não é que exista um mito em torno de Sylvia Plath, mas, sim, que esse mito não seja simplesmente o de uma poetisa tremendamente talentosa que morreu cedo demais, por erro e imprudência.
Eu costumava considerar sua alegria uma fachada, como se ela fosse capaz, de maneira um tanto esquizóide, de virar as costas para o seu sofrimento a bem das aparências e fingia que ele não existia. Mas talvez, também, conseguisse manter sua infelicidade sob controle porque podia escrever sobre ela, porque sabia que estava salvaguardando de todos aqueles terrores algo maravilhoso.
O fim veio quando ela sentiu que não podia mais suportar o tema. Tinha esgotado o assunto, e estava pronta para algo novo.
“O jorro de sangue é poesia,
Não há como estancar.”
A única maneira que ela conseguiu para estancá-lo, estando a essa altura com a visão já toldada pela depressão e o mal estar físico, foi apostando aquela última ficha. Tendo então, como imaginava, providenciado um salvamento, deitou-se diante do forno ligado quase esperançosamente, quase com alívio, como se estivesse dizendo: “Talvez isso me liberte”.

A. ALVAREZ. “O Deus Selvagem – Um Estudo do Suicídio”, Companhia das Letras, 1999, Tradução Sonia Moreira



ESPELHO


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.


Sylvia Plath
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes & Maurício A. Arruda

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A MORTE É INDESTRUTÍVEL


Max Martins. Interferência Ney Ferraz Paiva.

Acabava-se de morrer minha morte
lène Cixous


Há dez dias morria em Belém do Pará o poeta Max Martins.
Deixou uma poesia maior do que nós e ele próprio talvez percebesse. Exigia-se muito, o máximo, mas jamais a perfeição. Como ele mesmo disse: “Eu sujei a perfeição”.


Rivalizava-se com a palavra, aspirava uma obra em que os pontos de tensão se multiplicavam e distendiam de um livro a outro. O zen era uma fraude. O zen era uma farsa. Sua escrita se movimentava num espaço de violência ativa, de combate e ruína. Max vivia e pensava a linguagem. Relação incomensurável com a poesia permanentemente renovada pela experimentação que nos deu a alegria de dois livros geniais, incomuns, de quem jamais cedeu e só assim pôde realizar seus grandes feitos - O risco subscrito (1980) e Caminho de Marahu (1983). Livros que são mais poesia do que pode conter a amesquinhada biblioteca de toda literatura paraense.

Max não era o poeta de um lugar. O lugar permanece inconfessável. Max escreve num trânsito de memória, delírio, esquecimento.

O que lhe nega a língua, o mutismo das representações e da intimidade. O silêncio de quem nada tem a confessar, nem seu léxico a revelar. Seu texto é sempre Outro. Nômade. Sem rosto nem pertences. Há, claro, ramificações e revezamentos diversos e intensos. Dos mais antigos: Walt Whitman, Carlos Drummond, Murilo MendesPaulo Plínio Abreu, Mário Faustino, Robert Stock, aos mais recentes: Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Edmond Jabès.

Max apartava-se do testemunho documental. Não queria ser o poeta das pequenas histórias ou das grandes tiradas do momento na sala de festas da oficialidade local. Nem procurou escapar pela saída de emergência dos contos nem das crônicas nem do jornalismo. Foi poeta apenas. Poeta da palavra com as consequências e implicações tremendas.

Fez a sua escolha de poeta e manteve até o fim os caminhos de sua aposta. Uma aposta pela grande poesia. E lançou sorte à sua morte. E viveu sem concessão o seu delírio.


Ney Ferraz Paiva 20.02.2009

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Para que não se vá a vida ainda


Internado há seis meses num hospital em Belém, o poeta Max Martins, 82 anos, enfrenta seus dias decisivos. Ainda em dezembro sofreu uma parada cardíaca que durou trinta minutos, mas surpreendentemente seu coração voltou a bater. Por ele mesmo, pelos amigos, pela palavra – sua grande opção sempre: “Em primeiro lugar, eu quis ser poeta. Mas eu sabia que isto poderia me custar muito. Perdi os dentes, perdi o bonde, perdi uma maneira de ganhar dinheiro, de vencer na vida. Me dediquei só à poesia. O resto transformei em calo seco para que não doesse tanto”. Sob os efeitos da palavra Max apreendeu esta fala de fluxos errantes em todos os sentidos. Entre 1952 e 2002 foram quinze livros de intensidades livres, partículas loucas, inesperadas, sem estratificação.




***
Seleta - Max Martins

Estanho

Não entenderás o meu dialeto
nem compreenderás os meus costumes.
Mas ouvirei sempre as tuas canções
e todas as noites procurarás meu corpo.
Terei as carícias dos teus seios brancos.
Iremos amiúde ver o mar.
Muito te beijarei
e não me amarás como estrangeiro.


[do primeiro livro O Estranho, Belém, 1952]


1926/1959

Já então é tudo pedra
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante.
E onde outrora o mar
– os olhos – búzios esburacados.

E tudo é duro e seco e oco,
o sexo enlouquecido
o osso agudo
coberto de pó e de silêncios.

Havia uma ferida, a primavera
que já não arde nem desfibra – seca
a flor amarela escura
anêmica impura
– rato no deserto

caveira de pássaro
exposta na planura


[do livro Anti-Retrato, Belém, 1960]


Koan

A pá nas minhas mãos vazias
Não a pá de ser
mas a de estar, sendo pá
lavra no vento
nuvem-poema
arco
busco-te-em-mim dentro dum lago
max
eKOÃdo
e a face esgarça-se verdemusgo
muda

(Quem com ferro fere
o canto-chão
infere o
silen
cioso
poço?)

pá!
Cavo esta terra – busco num fosso
FODO-A
agudo osso
oco
flauta de barro
sôo?

Silentes os sulcos se fecham
espelhos turvam-se
e cavo sou
a pá nas minhas mãos vazias


[do livro H’era, Rio de Janeiro, Labor, 1971]


Enterro dos Ossos

Outrora eu te escrevia oásis
Raso fosso de vozes
entre parênteses
(eu-tu)
tu) (eu
nós
palavras
de febre e areia
ex-caldo
do vosso ventre
fruto
frustro num X
pendente:
ISTO É MEU CORPO
delito
escrito e escarrado
parido
da mão solitária
Mister-mistério (o acaso) eu te escrevia
transcrevia
do princípio ao fim o avesso nome
alpha de alar
phalar
e te seguir
as’ir
seta perdida
atrás do alvo (negro eu) Céu cego-vazio
Ou
Outrora escrita-pista para o pouso
(ânsia no vôo
em vão
no ar senil)
ousava
usava falaz-faminto
o louco lábio
errava

E ilhas não há
senão álibis sibilinos sub-líneos
Uns pássaros sujos
as’peados

Hoje te desescrevo
libidinoso grito: Cavo o silêncio

e enterro os ossos
órficos
(e este vício)
no poente
ó asa
as
a


[do livro O risco subscrito, Belém, 1980]


***

Este que é o sudário. A teia
em que me escrevo e me alivia
do sangue adiante na sua cólera
este é meu céu. Numa bandeira turva

a palavra sobrevoada por astros –
constelações de minha vida, uma jura
adorada no silêncio
– eis-me

em linho corrompido amordaçando a ilha
amordaçando a chaga, aliciando a carne
anavalhada, a lua
negra na pele – eis
erótico-erosivo, o ideograma da morte
a flor da areia

O nome na escritura, eis
a palavra, o deserto da página
e o verso mistério da fé
Eis
o caminho
o branco que firo, a letra
o gueto do signo e suas estrelas

Eis-nos, em abandono


[do livro A fala entre parêntesis, renga com Age de Carvalho, Belém, 1982]


Ayesha

Toco
enfim no oco
no ânus sinuoso da beleza
E é falso

o Luminoso
o outro-gozo, o vício da beleza

falsa a falárica, a fala em riste
a África em chamas do poema
o fórum da beleza
Toco
desmoronadamente n’Ela
a Feiticeira


[do livro Caminho de Marahu, Belém, 1983]


Isto por aquilo

Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa

Ou isto

(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade
o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
– ruídos

[do livro 60/35, Belém, 1985]


Saltimbanco

O não mais espumoso vinho dos abismos
O cauterizado testemunho de um instante de beleza
O ritmo do oceano
O palco
e a metade da cama para o falso poema
O saltimbanco

Ou o sangramento
da pedra de um deus a cada assalto
O cadafalso
O semi destroçado frêmito de um destino de cego de antemão
O não mais aceito rito do ofício O ofício:
esta rasura do corpo sendo esquecido
O esquecimento
O desabitado segredo das palavras


[do livro Marahu Poemas, Belém, 1991]


A hóspede

Tua mão no freio embaixo, freia.
Detém tuas coxas
teus pés
os passos. Deixa
que a fruta caia só ao seu tempo.

Cumpre é que te isoles
(ou até mesmo fujas)
desta insolente e sobrevinda jovem
a hóspede
(para que teu céu não se envileça
nem te envelheça o vento
que vem de cima para baixo, sobre a pele)

Melhor é que agora obscureças
o poder dela, o nome dela, estas tuas águas
– águas trementes

[do livro Para ter onde ir, São Paulo, 2002]


Marahu: primeira relação

2 formigas – operárias
ápteras
ou novatas, não
de fogo mas
noturnas, doces

1 grilo
(depois aprisionado
pela aranha, morto
ao amanhecer)
O canto dum galo
e outro galo
A saracura. A tarde
2 gaviões molhados
encolhidos no pau da árvore
pensos

Garças
Sobre as pedras
negras da praia
Os urubus
o boto morto
um cão medroso, sapos
sapos
sapos
1 goteira
sapos
chuva
o sol
vindo do mato
às 7
da manhã
A noite
a escuridão o vento as velas
de Lao-tsé
Thoreau
E o meu cajado de bambu rachado
o chão
folhas úmidas


[do livro Colmando a lacuna, Belém, 2001]
Imagem: Paulo Ponte Souza

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A BARBÁRIE VERBAL DE MAX MARTINS

Por Ney Ferraz Paiva


Quando o homem toma plena consciência dos seus poderes, do seu papel, do seu destino, é um artista e cessa de debater-se com a realidade. Torna-se um traidor à raça humana. Cria a guerra porque anda permanentemente de passo trocado com o resto da humanidade. Senta-se no limiar do ventre materno com as reminiscências da sua raça e os seus desejos incestuosos, e recusa-se a sair dali. Esgota o seu sonho de paraíso. Reduz a sua experiência real da vida a equações espirituais. Despreza o alfabeto ordinário que oferece quando muito uma gramática do pensamento e adota o símbolo, a metáfora, o ideograma. Escreve em chinês. Cria um mundo impossível a partir de uma linguagem incompreensível, uma mentira que encanta e escraviza os homens.

Henry Miller, carta a Lawrence Durrel, 1937.


Alguém que joga fora sua própria obra. Assim o poeta Max Martins enfrenta há 50 anos a perfídia e a opressão que o nega. Seu primeiro livro O Estranho [1952] nunca chegou às livrarias. Anti-Retrato [1960] não teve destino melhor: ficou empilhado dentro da casa do poeta, até mesmo no banheiro do seu escritório. “Foi quando resolvi mandar um menino jogar fora os livros nos covões de São Braz, onde é hoje o terminal rodoviário. Anos depois, amigos me comunicavam que possuíam o Anti-Retrato. ‘Mas eu não dei o livro’, retrucava. ‘Jogaram pela minha janela’, respondiam. Pois bem, esse menino, em vez de jogar os livros nos covões, passou a distribuí-los pelas casas, jogando-os pelas janelas, como se fazia antigamente com os almanaques”. Estamos diante de uma literatura sustentada apenas pela precariedade, não pelo seu valor de mercado; errática e alheia, desloca-se do seu destino objetivo para um lugar sem referências nem memórias: um labirinto se fazendo. Da longínqua Belém dos anos 1940, desde sempre destinada a não ser porto nem metrópole, e das “anotações líricas” desse período, o poeta chega, na contramão de si mesmo, a uma escrita que convive com o fracasso de ocupar com a palavra os territórios vazios: cavar e lavrar seus sulcos. Impassível, ela [a rosa de Celan/e de ninguém] se fecha à sua volta como uma armadilha. Colmando a Lacuna [2001] comprova: mais uma vez, acossado pelas costas, a palavra, a frase, o verbo [os chamados do tigre] lhe atravessam. Max Martins escreve de dentro de uma cova, cada vez mais funda. Desce à merda da palavra, revolve a sua lama. Não se submete às superficialidades, escava contra elas, esconde-se, retira o que disse [seu indizer] nesse subscrito jogo da linguagem. Eis aqui o seu lance: não identifica sua fala a um pensamento qualquer, a uma cultura dominante que lhe sirva de moldura e espelho. Desde O Estranho [livro dedicado à memória de seu pai e à sua mãe], Max multiplica imagens desfeitas da infância, ou melhor, desescreve-as, estranhando-se nelas, desterritorializando sua fala, para assim se livrar das nostalgias maternas e das culpas em relação ao pai – nada mais que isso e a um tempo tudo isso. Em Anti-Retrato o poeta se espelha como uma pessoa que não se parece com os da família, um bicho, uma aberração. É sem os cosméticos da linguagem que a escrita de Max modifica seus traços, a hera misteriosa revolve tudo [o teu grotesco/na impossibilidade de me deter/já me consola]. O não-consolo do poeta se dá pelo indefinido de suas imagens adversas, sinuosas, inexatas. Só como aberração essa escrita funciona, deslocando-se no pouco do seu buraco, no tempo exíguo de um grito e, no entanto, temos sempre expresso aí um transcurso de tão longa duração: a intensidade e não o significante importa para essa poesia arrastada entre paredes, de dilaceradas peles e órgãos revolvidos. De um jogar fora para um jogar dentro – eis a malograda linha divisória dessa geografia em transe, ligada subterraneamente à linguagem que não se quer poder, mas rastro, erro. Essa anti-fala mais uma vez lançada nos covões, em seu limiar de morte, só por acaso recolhida.



SOBRE UM POEMA DE ROBERT STOCK


Algumas semanas antes de sua morte
meu pai dizia
podando os pés de pêra
– como
era saudável e doce a nossa fome
contudo
indiferentes
apenas deleitavamo-nos
dos seus suados frutos

Vivo e precioso
aquele sabor também morava
razão e fé em minha mãe
sabor na boca – beijo
do amor sofrido num e noutro
sua ternura
sua armadura, flor
(nunca mais em maio)
semente e herança:
as
pêras
– lágrimas –
frutos fartos para sempre e um dia


QUERO


Quero que ela seja rainha
A rainha. Quero
fechadas as paredes
com raízes
e rufar de tambores
Mulher na manhã
mesmo sem cinzas na clareira do bosque
dissolvida a cuspo
Mulher-amante
Musa e nuvem
tatear seu ventre
na sublime meditação
do seu olhar
sonhar
águas azuis
E que rei sou eu? Sem coroa e reinado
sem dinheiro, traído e desterrado
O Velho Rei de Rouault, católico e operário,
taoísta e zen
O Velho Rei austero com flores na mão
o ser próprio

Quero, Rainha
que o ouro do seu coração, quero
na minha boca
em febre
febre prateada

Eis que escuto a Sonata
para piano e violoncelo
que ofereço
com molto sentimento d’affetto
no seu aniversário
à Rainha!


LE SQUARE TROUSSEAU


O teu preciso envelope
finalmente chegou. Que bom saber
que estais bem! Que bom poder
te ler
depois de tanto
tempo!

Obrigada, amor, obrigada!

Tu és a boa notícia, a Boa Nova
desta temporada,
primavera em Paris
Beijos sabor chocolate


Max Martins, O Cadafalso, Organização Ney Ferraz Paiva, Belém, cão-guia, 2002.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

PERTURBAÇÃO, THOMAS BERNHARD
Os comunistas não sabem o que é o comunismo. Lamentavelmente.


Somos, independentemente da vida profissional, viajantes em enterros. E sempre morrem precisamente, caro doutor, os que sabíamos que morreriam. As surpresas são raras. Pergunto, disse o príncipe, agora estão ampliando o cemitério de Bundau, não? E Huber diz: brigas. O prefeito, os socialistas... etc... Ao município, diz Huber, ninguém queria dar um pedaço de terra. Por isso o município simplesmente o desapropriou. Desapropriou, acho eu. Eis uma palavra que me faz compreender toda a repulsividade do Estado, toda a estupidez estatal, toda a súcia de funcionários públicos. Desapropriar! Desapropria-se a torto e a direito, digo, por todos os lados se desapropria, com os pretextos mais fúteis. Os políticos desapropriam impunemente. Desapropria-se impunemente. Desapropriam e arruínam. Arruínam a natureza. Desapropriar!, exclamo. E digo: tomara que o Estado logo se desaproprie a si mesmo. Que se desaproprie o quanto antes!, exclamo, que se suicide! Chegou o momento de o Estado se desapropriar a si mesmo, disse o príncipe. Esse estado ridículo, eu disse. Desapropriar! Decepam-nos a machadadas os dedos dos pés, meu caro doutor, veja o senhor, os dedos dos pés; cortam-nos os jarretes, ficamos sem poder andar... O Estado está bichado, digo; falo sério, o Estado está bichado. Nos últimos tempos minha frase favorita é, caro doutor, o Estado está bichado. Tudo é uma porcaria, digo a Huber; os vermelhos são uma porcaria e os negros são uma porcaria. Tudo agoniza de uma forma igualmente estúpida, não é verdade?

Tudo menos a ciência. Digo a Huber: apesar de tudo, a agonia republicana é sem dúvida a mais repulsiva, a mais dolorosa. Não é verdade, caro doutor? Digo: o povo é estúpido e fede; sempre foi assim. Huber diz então que no Bundau, concretamente, entre os trabalhadores de Drack, há comunistas. Comunistas!, digo, comunistas! Sim, comunistas! Também eu tenho um montão deles, asseguro-lhe. Tudo o que há embaixo do castelo, digo, é comunista! Tudo! Mas o comunismo e os comunistas não sabem o que é o comunismo. Lamentavelmente.






Thomas Bernhard, Perturbação, Rocco, 1999,

Tradução: Hans Peter welper & José Laurênio de Melo.
Imagem: Iraq, after Saddan @ Eddy Van Wessel.